Opinião

Otimismo equivocado


Há uma certa leviandade na maneira pela qual o governo pouco se importou com a decisão da Moody’s sobre o risco brasileiro


  Por Roberto Fendt 12 de Agosto de 2015 às 15:23

  | Economista.


Às vezes me pergunto se não estou mais reconhecendo o mundo. Vejam só, leitores: em um mesmo dia, a Moody’s – agência de classificação de risco – rebaixou a nota de crédito do Brasil, o governo chinês desvalorizou sua moeda e divulga-se estudo que aponta que temos oito trimestres de retração econômica – isso mesmo, leitor, dois anos de queda no PIB brasileiro. E a reação do governo foi de que está tudo bem, que não devemos nos preocupar.

O assunto do rebaixamento da nota de crédito do Brasil e a reação a esse anúncio são exemplares. Depois de já termos sido rebaixados por outra agência de avaliação de risco, a Standard & Poor’s, agora fomos rebaixados novamente pela Moody’s. Comenta-se no mercado que o mesmo possa ocorrer com a nota da terceira grande agência, a Fitch.

Seria de esperar-se consternação da parte de todos. Estamos agora muito próximos do rebaixamento definitivo, aquele que coloca nossa nota na categoria de especulativa. Se isso eventualmente vier a ocorrer, teremos grande dificuldade de captar novos recursos no exterior, já que muitas instituições globais estão proibidas por seus estatutos de investir em países com grau de risco especulativo. Pior, algumas delas serão obrigadas a repatriar recursos já aqui investidos pela mesma razão.

Contudo, a reação foi inversa. Argumenta-se que poderia ter sido muito pior. Caso tivéssemos sido
rebaixados dois degraus, já estaríamos com grau especulativo. Dê-se graças ao Senhor, alguém poderia adicionar. Por ora, estamos salvos e essa depreciação da qualidade de nosso risco perante os investidores pode ter sido uma bênção disfarçada. Porque, se tivermos juízo, devemos fazer o dever de casa completo e aprovar rapidamente o ajuste fiscal. Afinal, já lá se foram sete meses e o ano começa a entrar na reta final.

Curiosa maneira de ver as coisas. Se é verdade que devemos nos aplicar em levar adiante o ajuste econômico, não há razões para imaginar que nossa vida ficará melhor depois de termos tirado a segunda nota pior na avaliação do risco de deixarmos de pagar o que devemos.

Digo isso porque as notas conferidas decorrem da avaliação técnica de diversos critérios. Um deles é a estabilidade política. Acho desnecessário qualquer comentário a respeito. Quem lê jornal e se informa sabe a quantas anda a política brasileira – e para onde ainda pode ir. Por esse quesito, não há porque esperar uma melhor nota no futuro imediato.

Um segundo quesito é o crescimento econômico. O crescimento é indispensável para que a evolução do endividamento tenha correspondência na capacidade de pagar o serviço da dívida e de rolar o principal. Isso sem contar que o déficit nominal já requer a colocação líquida de novos títulos do governo para cobrir o perene déficit nominal das contas públicas, que inclui o saldo das contas correntes mais o pagamento dos juros da dívida.

No entanto, o estudo a que fiz menção anteriormente, de autoria do Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace), aponta que podemos estar a caminho da maior queda do PIB dos últimos 35 anos e que, além disso, a queda poderá repetir-se até o primeiro trimestre 2016. De acordo com o estudo, a retomada da atividade econômica somente ocorreria a partir do terceiro trimestre do ano que vem. Por esse critério, também, não há como esperar uma contribuição positiva para a reversão da nota de risco brasileira.

Amarrado a esse indicador, está a responsabilidade fiscal, entronizada no superávit primário de nossas contas públicas. Para que se obtenha um saldo primário de pelo menos 2% do PIB será necessário cortar mais gastos e aumentar substancialmente a receita tributária. Para isso é necessário que se expanda a base tributária, o que somente ocorre com uma economia em crescimento. Se estiver certo o Codace, 2015 está perdido como ponto de reversão da economia, o mesmo ocorrendo no primeiro semestre de 2016.

Se tudo isso não bastasse, na terça-feira o governo chinês desvalorizou em 1,82% a moeda local, o yuan.
Pode não parecer muito à primeira vista, mas é a maior desvalorização diária da moeda chinesa em 20 anos. As interpretações a respeito das motivações das autoridades para a desvalorização divergem. Mas há consenso sobre as consequências da medida.

Após a desvalorização, ficou mais caro para o importador chinês obter bens e serviços no mercado interno. O que é o mesmo que dizer que nossas exportações perderam competividade naquele mercado. Não é mercado qualquer, mas o do nosso principal parceiro.

Tudo indica, portanto, que não há razões para o súbito otimismo. A hora é de trabalho duro e no ajuste econômico. Tudo o mais é fumaça.
 

 






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