Opinião

Os líderes e seus partidos rebeldes


Assinala-se uma tendência mundial em que lideranças políticas no governo são desafiadas por suas próprias bases


  Por Roberto Fendt 13 de Maio de 2015 às 00:00

  | Economista.


Ian Bremmer, presidente do Grupo Eurásia, propôs interessante reflexão que gostaria de partilhar com os leitores.

O seu argumento central é de que políticos eleitos – presidentes, primeiros-ministros e outros ocupando cargos executivos – estão enfrentando mais forte oposição de dentro de seus próprios partidos ou coalizões do de que fora.

Esse fenômeno, argumenta, está ocorrendo em um grande número de países e não se restringe unicamente ao nosso.

É claro que essa rebelião intestina ocorre mais onde as instituições políticas estão menos consolidadas. Nessa circunstância, a volatilidade nas votações torna-se maior e maior também a dificuldade de obter a lealdade de partidos e coalizões.

Esse fenômeno se dá de forma independente de ser forte ou fraco o líder político exercendo cargo executivo. E assola governos de “esquerda” como de “direita”.

Se o governo é de “esquerda”, a rebelião em suas fileiras decorre de promessas que se tornaram utopia: a ascensão de camadas populares à classe média dá lugar à pressão no mercado de trabalho e menores remunerações; ou o próprio crescimento do emprego fica comprometido por medidas de ajuste necessárias para corrigir erros grosseiros de política econômica no passado.

Dois exemplos caracterizam essa situação. O primeiro é o da longínqua Grécia.

O primeiro ministro Alexis Tsipras enfrentará já no próximo mês a difícil decisão de renegar a maioria das promessas de campanha que o elegeu ou colocar o país à margem do sistema financeiro internacional – com todas as consequências que isso acarretará.

Não surpreenderá se o seu partido, Syriza, dividir-se, deixando o primeiro ministro sem maioria no Congresso grego.

O exemplo perto de casa – de fato, em casa – é nosso próprio país. O governo da presidente Dilma Rousseff deu uma guinada extrema após a vitória na eleição do ano passado.

Seu ministro da Fazenda é um conservador em matéria fiscal, comprometido com os cortes necessários para produzir um superávit fiscal de 1,2% do PIB esse ano.

Até agora o apoio de seu próprio partido, o PT, e da coalização que lhe dá apoio no Congresso, é no mínimo envergonhada.

Se o país é governado por grandes coalizões detentoras do poder por considerável tempo, essas coalizões estão se fragmentando em diversos países.

A África do Sul é um exemplo marcante. O socialdemocrata Congresso Nacional Africano governa o país em aliança com o partido do Congresso dos Sindicatos da África do Sul e com o Partido Comunista Sul-Africano desde o estabelecimento da democracia multirracial em 1994.

O país padece de todo tipo de problemas, da corrupção endêmica à infraestrutura em deterioração e ao alto desemprego.

A incapacidade do presidente Jacob Zuma em ceder parte do poder está provocando uma cisão no meio de sua própria coalizão, comprometendo o apoio dos sindicatos e da esquerda.

Voltando os olhos para a “direita”, o caso da vizinha Colômbia é exemplar. Ali, a fragmentação da base de apoio do presidente Juan Manuel Santos vem dos segmentos ligados ao ex-presidente Álvaro Uribe.

O resultado do choque dos dois líderes poderá provocar a perda do acordo de paz do governo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo terrorista ligado ao narcotráfico.

Uma eventual reversão do acordo levaria a enormes perdas políticas e econômicas para o país.

Outras situações dessa mesma natureza estão ocorrendo na Malásia e Filipinas.

Finalmente, há também casos que não se enquadram nas duas categorias anteriores. Trata-se de situações em que alguém de fora das oligarquias políticas obtém uma expressiva vitória eleitoral.

Essa vitória geralmente se baseia no apoio de grupos fora do poder e alienam interesses do próprio grupo vencedor.

Exemplos notáveis disso ocorrem no momento na Turquia, Indonésia e até mesmo na Índia.

O caso da Turquia é ilustrativo. Para livrar-se da oposição e mudar a Constituição para aumentar seu poder pessoal, o presidente Recep Tayyip Erdogan alienou o apoio das principais figuras de seu próprio partido.

Hoje, a oposição à sua crescente tentativa de concentração de poder está toda no partido do presidente.

Nos outros dois casos, a rebelião no interior do partido vencedor decorre de uma vitória expressiva de seu líder, ofuscando as demais lideranças partidárias.

A moral dessa história é simples: proliferam governos populistas em várias partes do mundo; mas são cada vez menos sustentáveis governos de personalismos e tentativas autoritárias baseadas no apoio de massas onde prevalecem instituições democráticas.

Lição que relutamos em aprender, mas que está progressivamente se impondo.