Opinião

Os doze trabalhos de Temer


O caminho de Michel Temer é inverso ao de Hércules: ele terá que executar árduos trabalhos para administrar um trágico espólio de desacertos


  Por Josef Barat 29 de Abril de 2016 às 12:16

  | Economista, Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da ACSP


Após consulta ao Oráculo em Delfos,  como penitência, Hércules deveria executar uma série de doze trabalhos e servir doze anos a Euristeu, seu meio irmão, ambos eleitos por Zeus.

Ao final dos trabalhos ele se tornaria imortal. O caminho de Michel Temer é inverso. Após servir lealmente por oito anos à sua cabeça de chapa, ambos eleitos com o apoio de Zeus, ele terá que executar árduos trabalhos para administrar um trágico espólio de desacertos.

O primeiro deles, por ser o mais fundamental, é o de estrangular o destrutivo Leão de Nemeia do descrédito internacional e da falta de confiança dos mercados.

Isso vai exigir uma mudança significativa de postura do governo em relação à política externa e ao relacionamento institucional com os agentes econômicos.

O segundo, é matar a Hidra de Lerna do desajuste das contas públicas, estancando as diversas cabeças dos déficits crônicos e do aumento da dívida pública.

Para cortar as cabeças e impedir sua reprodução, terá que promover um rigosroso ajuste fiscal e ter o apoio incondicional de uma equipe econômica responsável.

O terceiro é alcançar e conter a Corça de Cirinéia, que com velocidade espantosa vem desmantelando os fundamentos macroeconômicos e contribuindo – juntamente com o forte desajuste das contas públicas –para o descrédito internacional, o rebaixamento pelas agências de risco e a falta de confiança dos investidores.

É importante, portanto, voltar ao tripé do superávit primário, metas de inflação e câmbio sem intervenção.

O quarto é capturar pelo cansaço o descontrolado Javai de Erimanto da inflação, que  devasta tudo que encontra pela frente, desde os ganhos das famílias até a gestão financeira das empresas.

Em consequência, o quinto trabalho é o de limpar currais do rei Augias dos obstáculos burocráticos, das intervenções absurdas do governo e dos dejetos dos três mil bois da carga tributária absolutamente irracional.

O sexto trabalho é o de matar, no Lago Estínfalo, os monstros que, pelo seu gigantesco tamanho, interceptam no vôo os raios do Sol.

Trata-se, portanto, de dar transparência e transmitir confiança, no sentido de estimular niveis de investimento mais compatíveis com o crescimento e estimular a inovação e o desenvolvimento tecnológico.

Mas, para isto, é preciso ter capacidade de convencimento e criar um ambiente de pacificação nacional.

O que é importante, tambem, para o sétimo trabalho, qual seja o de capturar vivo e montar o Touro de Creta da previdência social.

Ou seja, de estancar a sangria de um sistema que não tem sustentação diante da carência dos recursos e compromete sua viabilidade num momento crucial de transição da pirâmide etária.

O oitavo, de enorme dificuldade, é enfrentar os  cavalos do Rei da Trácia que vomitam fumo e fogo. É buscar uma racionalização da carga tributária e uma profunda renegociação do pacto federativo em torno do sistema tributário, tarefa que exige força e habilidade

O nono trabalho é o de vencer as amazonas da rainha Hipólita, apossando-se do cinturão mágico dos programas sociais que elas vestem.

Trata-se, no fundo, de dar uma lógica efetivamente mais inclusiva aos programas sociais e maior racionalidade aos gastos, evitando, tanto a perversa geração de dependência, quanto a absoluta falta de transparência na aplicação dos recursos.

O décimo é matar o Gigante Gerião do sitema de saúde pública. É o monstro de três corpos, seis braços e seis asas, de concepções obsoletas, em meio ao caos das epidemias de Dengue, Chicungunha, Zika e falência dos hospitais públicos.

Trata-se de dar mais seriedade e consistência às açoes de saúde pública.

O décimo primeiro trabalho será o de colher os pomos de ouro do Jardim das Hespérides, após matar o dragão de cem cabeças que os guardava.

Um dragão que representa um sistema educacional disfuncional, eivado de “ideologias” obsoletas e absolutamente distanciado da contemporaneidade.

O dragão terá que ser  morto por um Atlas e é um trabalho para o herói mostrar que veio mesmo para mudar. É crucial para qualquer esperança que se possa ter no futuro do Brasil.

O último trabalho consiste em domar o cão Cérbero (hoje transformado em cobra cascavel), saido do mundo dos mortos-vivos com autorização de Hades. A condição é a de conseguir dominá-lo e reduzi-lo à sua real dimensão de morto vivo, sem usar as suas armas.

Terá que lutar só com a força dos seus braços e mostrar que a alternativa do entendimento e da união nacional será mais efetiva para o país que o discurso do ódio e da confrontação inconsequente.

Que os deuses mais sábios do Olimpo o ajudem e lhe deem apoio nos árduos trabalhos!