Opinião

Operação de guerra


Para quem desejava uma intervenção militar, ela aconteceu. Pela via legal e constitucional


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 04 de Junho de 2018 às 19:12

  | Historiador


Os brasileiros não têm ideia do quão perto estiveram de um desastre nacional nas semanas em que durou a paralisação dos transportadores de cargas e o bloqueio das estradas.

A capilaridade do caos foi muito maior do que os cancelamentos de viagens aéreas ou as filas nos postos de combustível.

Felizmente, a ação política do governo, ainda que tardia, permitiu que ficássemos no estágio do transtorno, porém o Brasil poderia estar hoje amargando perdas muito maiores, até de vidas humanas, se alguma coisa não tivesse funcionado muito bem.

Caminhões de combustível foram escoltados aos aeroportos e aos postos de distribuição comerciais que abasteceram veículos particulares e oficiais, estes últimos os essenciais aos serviços públicos.

O acesso a refinarias e distribuidoras foi desimpedido. Portos foram liberados e impediu-se a paralisação do de Santos.

Veículos com suprimentos hospitalares foram resgatados e suas cargas vitais chegaram a tempo ao seu destino crucial, inclusive por aeronaves.

Corredores de circulação nas grandes vias do Sudeste foram mantidos abertos. Um patrulhamento contínuo impediu a obstrução de outros eixos, dispersou bloqueios violentos e utilizou centenas de motoristas - militares e policiais - para manobrar veículos usados como obstáculos.

O sistema de telecomunicações do País continuou funcionando, garantida a manutenção e os reparos aos atos de sabotagem que começaram a surgir.

Foi garantida a chegada de combustível às termelétricas de Rondônia e Roraima, evitando-se um apagão literal nesses estados da federação.

Tudo isso, trabalhando ininterruptamente desde 25 de maio, sem violência, longe das câmeras e das declarações oficiais.

Para quem desejava uma intervenção militar, ela aconteceu. Pela via legal e constitucional.

Foram o Estado Maior Conjunto das Forças Armadas e os Comandos Militares de Área, de norte a sul do Brasil, que, integrando Forças Armadas, Policia Rodoviária Federal e Polícias Militares de alguns estados, realizaram as ações que salvaram o País.

Uma operação militar, de fio a pavio, conduzida pelos sistemas de comando e controle, inteligência, logística e manobra, com ações de defesa territorial.

Essas ações se orientaram pelas informações colhidas das empresas pelas diversas agências dos ministérios que as levaram ao Estado Maior Conjunto, onde foram decididas as prioridades de atendimento em função das necessidades da população.

Tudo isso, conduzido por um ministro militar à paisana, não um ministro paisano fantasiado de militar.

Que soube se manter no seu papel político, sem interferir na cadeia de comando militar.

Com profissionalismo e discrição, sem caudilhagem e voluntarismo.

Como tantas realizadas pelas Forças Armadas, uma operação de guerra para impedir uma guerra.

A greve dos transportadores de carga, com toda perturbação que causou, mostrou que não existe substituto para a iniciativa privada na distribuição de produtos ao longo da cadeia comercial no País.

Mas mostrou também que país algum prescinde do Estado como grande mediador de conflitos, sempre recorrentes em uma sociedade democrática.

Algo que só acontece pela garantia da lei e da ordem.

FOTO: Vladimir Platonow/Agência Brasil 

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