Opinião

O verbo e o destino dos ladrões


Padre Antônio Vieira, um homem do século 17, antecipou em conhecidíssimo sermão algo que os brasileiros hoje conhecem tão bem


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 04 de Fevereiro de 2015 às 00:00

  | Historiador


O Padre Antônio Vieira (1608-1697) deixou uma vasta produção intelectual que impressiona pela sua atualidade, tratando de religião, política, costumes e relações internacionais.  Mas neste Brasil de hoje, impressiona muito mais a pertinência do Sermão do Bom Ladrão, “um dos melhores de todo o gênio de Vieira” (Padre Honoratti), o qual se transcreve.

LEITOR A

Chamam-se sátrapas, porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor São Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio [furto] por todos os modos. O que eu posso acrescentar pela experiência que tenho, é, que não só do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio [furto]; por que furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conhecem Donato, nem Despautério. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo.

LEITOR B

Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções de rapina. Furtam pelo modo mandativo, por que aceitam quanto lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, por que desejam quanto lhes parece bem; e gabando as cousas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância.

LEITOR A

Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes, em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente (que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente, o pretérito e o futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas, se antecipam contratos, com que tudo o caído, e não caído lhes vem dar a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos e plusquam mais que perfeitos, e quaisquer outros, por que furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar, para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tivessem feito grandes serviços, tornam carregadas de despojos e ricos; e elas ficam roubadas e consumidas. (“História do Futuro”, UnB, 2005).

Vieira podia ter encerrado aí essa magistral crítica aos desmandos dos sátrapas de El-Rey, mas ele entendeu que devia coroa-la com uma das mais finas peças de ironia já compostas na literatura portuguesa.

Rei dos reis, e Senhor dos Senhores, que morrestes entre ladrões para pagar o furto do primeiro ladrão – e o primeiro a quem prometestes o Paraíso, foi outro ladrão -; para que os ladrões e os reis se salvem, ensinai com vosso exemplo, e inspirai com vossa graça a todos os reis, que não elegendo, nem dissimulando, nem consentindo, nem aumentando ladrões, de tal maneira impeçam os furtos futuros, e façam restituir os passados, que em lugar de os ladrões os levarem consigo, como levam ao Inferno, levem eles consigo os ladrões ao Paraíso, como Vós fizestes hoje: Hodie mecum eris in Paradiso [Lc XXIII, 43: hoje estarás comigo no Paraíso] 

Nós também brasileiros. Para nos libertarmos da tirania da corrupção que nos oprime, rogamos que o rei e os ladrões tomem o mesmo destino profano que a Justiça lhes reserva.