Opinião

O tempo das urnas


O processo eleitoral tem que ser auditável de forma independente, transparente e segura. Todo ele, completamente


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 18 de Setembro de 2018 às 21:30

  | Historiador


Não é de hoje que especialistas devidamente qualificados vêm expondo em audiências públicas no Senado e no STF suas dúvidas e preocupações quanto à segurança do processo eleitoral realizado eletronicamente no Brasil.

Na falta de respostas e providências concretas, as preocupações e dúvidas que eram deles passaram a ser de muita gente.

Agora, aproximando-se as eleições, diante da manifestação de desconfiança de um candidato no último domingo (16/09), esperava-se que o desconforto (para falar o mínimo) com a segurança das urnas eletrônicas viesse a ser esvaziado com manifestações consistentes das autoridades responsáveis pelas eleições.

Afinal de contas, é preciso que a população saiba como será definido o seu futuro, chegando a ser surpreendente que, até aqui, nenhum sábio tenha desconfiado que a desconfiança seja a causa de tantos brasileiros declararem que  vão anular seu voto ou votar em branco.

Portanto, o que o País não precisava era ouvir uma declaração pífia, do presidente do STF,  e uma imperial, da presidente do TSE, a respeito do que deveria ser a sua principal preocupação como garantes de um processo crucial para a democracia brasileira.

Num tom blasé que não se coaduna absolutamente com a gravidade da questão e do momento, o presidente do STF errou ao afirmar que o candidato  Bolsonaro foi sempre eleito pelas urnas eletrônicas; omitiu que os técnicos contratados pelo PSDB para fazer a auditoria em 2014 declararam não ser possível realizar uma verificação externa dos votos; e criou uma geografia eleitoral que só faz sentido para ele mesmo.

A presidente do TSE, por sua vez, foi peremptória em afirmar que as urnas “são absolutamente confiáveis” e “auditáveis”; que a crítica aos equipamentos  seria desconectada da realidade; e que em 22 anos de uso das urnas eletrônicas nunca houve um caso de fraude comprovado.

Para piorar, ambos sugeriram que o pedido de auditoria nas urnas vem sempre dos derrotados.

Declarações ainda mais infelizes no timing, quando é divulgada a notícia de que a empresa norte-americana Diebold foi multada em US$ 48 milhões pelo governo dos Estados Unidos por pagar propinas na China, Rússia e Indonésia, a mesma firma que fabricou as urnas usadas pelo TSE, conforme declarou a notória Smartmatic.

Positivamente, a resposta à questão das urnas eletrônicas oferecida por notáveis da República não é a que a sociedade brasileira merece.

É absolutamente inaceitável que as mais altas autoridades responsáveis pelas eleições deste ano venham a público afirmar, no bojo dessas manifestações infelizes, que “nós abrimos para possibilidade de auditagem de maneira geral”, ou que “os sistemas são abertos à auditagem para todos os partidos políticos seis meses antes da eleição”.

Não Excelência! O mais importante não “é dizer para a população que são auditáveis”.  

O importante é respeitar a sociedade brasileira, oferecendo-lhe garantias concretas de que a auditagem do processo eleitoral seja minuciosa e que cubra toda a sua extensão, da urna até a proclamação dos vencedores.  

O processo eleitoral tem que ser auditável de forma independente, transparente e  segura. Todo ele, completamente.

Ainda há tempo para as urnas darem ao Brasil o que ele precisa nesses tempos estranhos.

Confiança!

FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

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