Opinião

O relativismo moral da mídia - II


Todo o discurso dominante da TV Globo, no campo dos costumes, nunca foi conservador e reflete o mesmo relativismo moral de seus produtores de conteúdo


  Por Jorge Maranhão 15 de Julho de 2015 às 15:55

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de "Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas"


Na linha do artigo anterior, em que tratei da responsabilidade política da mídia em formar (ou deformar?) cidadãos estado-dependentes, diluindo suas responsabilidades em face de suas livre-escolhas e, sobretudo, incutindo nos mesmos uma mentalidade de relativismo moral, volto à minha tese de que o telejornalismo brasileiro tem se rendido não apenas à forma de apresentação do entretenimento, desde o advento do Fantástico, o show da vida até às recentes coreografias e cenotecnias do Jornal Nacional, mas também ao conteúdo de reformismo moral e de costumes da teledramaturgia, numa direção contrária à tradição brasileira e aos legítimos interesses de uma cidadania política consciente e atuante.

Basta ver os termos da recente discussão sobre mídia de massa e a corrupção de valores de nosso imaginário social, perpetrado pela declaração da dupla de noveleiros campeã de audiência, Gilberto Braga e Denis Carvalho, tentando justificar a baixa audiência do atual folhetim Babilônia.

“O Brasil encaretou”, dizem eles, numa clara inversão de posição. Se a vontade soberana do público sempre determinou os rumos da narrativa da teledramaturgia, a dupla quer defender o oposto: sua narrativa é que deve determinar nosso imaginário social.

Mas voltemos ao telejornalismo e seu contágio ideológico com a corrupção de valores da teledramaturgia, apresentada como trincheira de manifestações e teses subjetivistas de seus autores quanto aos mais variados temas da sociedade contemporânea, como homoafetividade, preconceito contra minorias, alegação de legalidade diante da conduta imoral de governantes e agentes públicos, abuso de autoridade, consagração da esperteza, mistificação da periferia, exaltação do consumismo e do voluntarismo etc., contra um padrão de costumes morais da tradição da grande maioria do povo brasileiro.

Se não, veja o leitor a última edição do programa Na Moral, idealizado e apresentado por um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros, Pedro Bial, mesmo que na corajosa função de animador de auditório, debatendo exatamente o tema do papel da TV na evolução – ou involução? – da moralidade pública nas últimas décadas.

A certa altura do debate, o jornalista pontificou: “Nestas cinco décadas, muitas vezes a TV Globo foi acusada de ser conservadora demais pelos liberais e de ser liberal demais pelos conservadores. Muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos. Alguma coisa a gente deve estar acertando! ”.

Evidente que não se trata de questionar uma frase solta no ar, mas o caminho que talvez esteja a trilhar o maior grupo de comunicação brasileiro, reconhecido internacionalmente pelo padrão de qualidade técnica de seus programas.

E avaliar as suas escolhas e responsabilidades, sobretudo na formação da opinião pública brasileira, em meio século de absoluta liderança de audiência.

Que escolhas, pois, tem feito a Rede Globo diante dos mitos perversos criados pela classe política nas últimas décadas, para justificar a sua própria delinquência, diluir sua responsabilidade civil e penal, sobretudo quanto à cínica generalização de nossa cultura de transgressão?

O de marchar junto com a sociedade real, que não aceita a revolução cultural levada avante nas últimas décadas pela mentalidade esquerdista infiltrada no aparelho ideológico da sociedade brasileira, como escolas, justiça, igrejas e imprensa?

Ou a de marchar contra a revolta que segmentos cada dia maiores da sociedade, como religiosos, grande parte da classe média, trabalhadores especializados, pequenos empreendedores, profissionais liberais, donas de casa, estudantes etc., estão a manifestar nas ruas e nas redes sociais contra o flagelo da corrupção política?

Não há dúvidas para a jovem da família-modelo entrevistada na última edição do programa. Vejam no site oficial da própria emissora.

Logo no início da entrevista, é de se observar a reação em áudio dos membros de sua família diante das cenas de sexo implícito apresentadas.

Assim como a declaração explícita de desaprovação da jovem que arrancou aplausos da plateia presente (e convidada pela própria produção do programa). Mesmo a chamada de apresentação no site da emissora comete um lapso cognitivo ao se referir apenas a um trecho editado de seu depoimento sobre “os valores como união e amor que devem ser destacados na TV. ”

Quando o que a jovem quer denunciar é exatamente a afronta que as novelas fazem à família, dando destaque exagerado à homossexualidade, sob o falso argumento de que a sociedade evoluiu e aceita com tranquilidade cenas de ativismo gay.

Retorno mais uma vez à questão: posição institucional da emissora ou apenas de seus noveleiros?

E mais: contra a assertividade conservadora de um dos debatedores convidados, o pastor Silas Malafaia, fizeram coro os demais quatro relativistas morais, dos quais três da própria casa, escalados para o debate.

Resta saber se o autor de novela Silvio de Abreu, o humorista Jô Soares, a desembargadora (e ativista gay segundo o pastor Malafaia) Maria Berenice e o próprio Pedro Bial estavam representando e defendendo a obra da TV Globo em seu meio século de atividade.

Que me desculpe o apresentador, mas a sua conclusão está equivocada. Não sou eu que o digo. Basta que ouça a declaração da jovem sem preconceito: a sociedade brasileira retratada pela telinha global não é a sua sociedade. Seria melhor afirmar: - "alguma coisa a gente deve estar errando”!

Exatamente porque todo o discurso dominante da TV Globo, no campo dos costumes, nunca foi conservador e reflete o mesmo relativismo moral de seus produtores de conteúdo, inclusive no campo político: a sociedade careta e ignorante tem os políticos delinquentes que merece.

É o nexo causal entre o mundo da ficção como plataforma de lançamento de novas “modas reais” e o mundo das reportagens fantásticas e surreais da vida pública. Um telejornalismo denuncista de uma corrupção sem-fim e generalizada da vida pública.

Com o previsível e lamentável resultado, para além da perda da audiência cada dia maior, de que a política é o lugar por excelência da impunidade, o passaporte oficial para a transgressão atávica da própria sociedade.

Atividade de predadores sociais, sem espaço para os valores morais que a teledramaturgia está a relativizar. E, fato agravante, é que em todas as demais áreas do jornalismo esportivo, de saúde, trânsito, meio-ambiente, educação e cultura, as demais redes de TV, inclusive a Globo, já apostam num jornalismo cívico, que convoca o cidadão comum para contrapor com suas iniciativas e propostas o noticiário bombástico da degradação.

Um jornalismo livre deste cancro de nosso imaginário social do relativismo moral imposto pela própria teledramaturgia soi-disant progressista.

É forçoso se concluir, diante da crescente audiência dos programas evangélicos das demais redes privadas de televisão, que a TV Globo não tem sido nem o espelho nem a janela, como declara Bial, da sociedade brasileira, não reconhecida pela sua própria entrevistada.

Mas, sim, uma lente de aumento da própria crise de valores morais de seus próprios Bozós produtores de conteúdo, e na medida em que escolhe deliberadamente pela cobertura de um jornalismo político enviesado de vilania, excessivamente denuncista, e como a única área em que omite o civismo exercido em todas as demais áreas do jornalismo.

Escolha colimada por uma teledramaturgia prenhe de relativismo moral e valores morais corrompidos pela lavagem cerebral produzida pela revolução cultural esquerdista de seus autores fundadores e perseguidos pelo Regime de 64.

Aos que argumentam que isto é histeria persecutória dos conservadores, vale lembrar que a epidemia do politicamente correto nada mais é do que uma nova versão mais polida do paradoxal lema da autocensura de maio de 68 “É proibido proibir”, importado (e vaiado) na canção de Caetano Veloso no Festival da TV Globo do mesmo ano.