Opinião

O que resta à Venezuela e aos seus vizinhos


Dar início a um bloqueio econômico e comercial, pois se é lamentável que a população venezuelana tenha que arcar com maiores provações, muito pior é o mundo alimentar um regime genocida


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 04 de Janeiro de 2018 às 19:32

  | Historiador


 

 

Causou sensação a proposta de intervenção militar estrangeira na Venezuela apresentada por um ex-ministro daquele país hoje radicado nos Estados Unidos. 

E curiosidade também, porquanto ela foi publicada originalmente no NYT, um dos mais fervorosos bastiões anti-Trump, e republicada aqui pelo jornal que não vem se caracterizando exatamente pela isenção ou pelos serviços que diz prestar ao País, ambos se valendo de declarações atribuídas ao presidente dos Estados Unidos para pressionar seus colegas sul-americanos a consentirem, endossarem ou participarem de tal intervenção.

O mínimo que se pode dizer é que tal proposta navega em águas turvas, das quais vai emergir alguma coisa desconhecida.
Por outro lado, a resposta de um jornalista do periódico de oposição venezuelana Tal Cual  é tão irreal quanto a da intervenção militar. E cruel.

Atribuir o atual estado de coisas na Venezuela aos  “erros” da oposição à ditadura de Maduro é o mesmo que esperar que Emil Háchas, o decrépito presidente da Tchecoslováquia, resistisse aos berros de Hitler que engoliram em março de 1939 o que restou do país, ou que Edvard Benes,  o primeiro-ministro desautorizado por Háchas em 39, reagisse ao golpe comunista de Praga em fevereiro de 1948, apesar da cooperação com os soviéticos.

Foram versões contemporâneas da magistral peça inventada por Tucídides para explicar a inutilidade do diálogo do fraco à mercê do poderoso.

Esperar que votos detenham Maduro, o expert em trituração dos resultados das urnas, é de uma ingenuidade que sugere suspeição ou autoimolação.

A mecânica do empoderamento totalitário não contempla qualquer possibilidade de convivência harmoniosa de um país com os seus vizinhos e tampouco de respeito às normas do Estado democrático de Direito. Ao contrário, a lógica desse poder é o confronto que não prescinde da força militar para moldar todas as expressões da vida nacional.

Na política, pela militarização da face e da pauta do regime.

No campo econômico, pela decretação da economia de guerra que, não por acaso, é gerida pelos militares ou por meio deles.
E na social, pela proliferação de milícias e agremiações que intimidam a população e se confundem com o aparato estatal.

É, não tem jeito. Para a esquerda, inclusive aquela chique que misturava o discurso certo com as razões erradas e que andou flertando com o chavismo desde os anos 90, é mais um revés. De Lênin a Hitler, passando pelo pouco criativo Stalin, a receita foi a mesma: sangue.

Há, portanto, um erro comum a essas propostas, tanto de intervenção militar estrangeira quanto de enfrentamento da ditadura pelo voto. Elas desconsideram a natureza crua do regime de Maduro e também a dos que se lhe opõem.

Regimes totalitários só caem em função da equação de força: quando provocam uma ruptura no sistema de segurança em que são suplantados por uma força maior ou o seu próprio sistema de força coercitiva entra em colapso. O que não é o caso da Venezuela.

Ela ainda não é uma ameaça consumada ao sistema interamericano de segurança e o seu aparato militar se  mostra solidário ao regime, controlado ou não pelos cubanos.

Por sua vez, potências médias regionais governadas democraticamente, como Brasil e Argentina, não promovem guerras preventivas, exigindo qualquer movimento militar de sua parte um nítido consenso político e um decidido apoio da opinião pública.

Faz tempo que o Brasil condiciona o emprego de suas tropas em operações internacionais à chancela da ONU, tanto para manutenção quanto de imposição da paz, missões que lhe trazem algum prestígio e experiência em conflitos de baixa intensidade, mas estão muito longe de lhe abrir caminho até a cadeira permanente no Conselho de Segurança.

Para tanto, seria preciso estruturar uma política e uma capacidade de projeção de poder militar que está além da estatura político-estratégica da Nação, hoje prejudicada pela crise econômica e pela desorientação de sua política externa.   

Entretanto, a um observador atento não escapa que as forças armadas brasileiras estão se preparando para enfrentar problemas na fronteira norte.

O Exército trata de melhorar os acessos terrestres pela Amazônia, amplia sua capacidade de comando e controle na área e já mostrou que pode rocar, sem dificuldades, blindados e artilharia do sul para o norte.

A Força Aérea dispõe de eficazes sistemas de defesa aérea e de desdobramento de unidades de caça na região continuamente aperfeiçoados.

E  a Marinha vem reforçando sua presença na área e sua capacidade de combate de superfície. Em suma, os militares estão prontos a cumprir o que lhes cabe segundo a Constituição: a defesa da Pátria.

A Venezuela não tem contenciosos com o Brasil. Sua geopolítica se orienta principalmente para o Caribe, onde espera exercer papel relevante, o que chegou  a provocar ciúmes em relação a algum protagonismo brasileiro na região.

Seus maiores problemas externos são de fronteiras, os quais, em passado não tão distante, geraram um conflito com Guiana, que provocou movimento de tropas brasileiras, e tensões com a Colômbia, felizmente colocadas na esfera diplomática.

Mas essa situação está mudando com a inserção da Venezuela na guerra fria do século XXI, em que ela se coloca como peça de manobra da Rússia e da China.

O leque de hipóteses de conflito na região se ampliou com a introdução da variável ideológica.

Como se viu, o regime totalitário para o qual se encaminha a ditadura de Maduro necessita de uma forte expressão militar de poder. Isso cria uma dinâmica que aumenta consideravelmente o risco de um conflito militar na região, inserido ou não no quadro de um conflito maior, como  reflexo ou pretexto de uma ação extracontinental.

Com o Brasil não é difícil prever o que pode acontecer quando o crescente contingente de venezuelanos refugiados em Roraima, ao ser perseguido por agentes chavistas ou cubanos infiltrados, revidar com ataques ao regime através da fronteira, provocando uma escalada de violência incontrolável que dê oportunidade à beligerância desejada por Maduro.

Por ora, tudo que resta aos vizinhos da Venezuela fazer, a começar pelo Brasil, é estabelecer um sistema de contenção do regime chavista, em todas as denominadas expressões do poder: política, militar, econômica e psicossocial.

Sustentar a condenação ao regime, respondendo com firmeza e equilíbrio às provocações da diplomacia do desaforo.
Reforçar a segurança da fronteira, negando pretextos e dissuadindo ameaças.

E dar início a um bloqueio econômico e comercial, pois se é lamentável que a população venezuelana tenha que arcar com maiores provações, muito pior é o mundo alimentar um regime genocida.

E quanto à última expressão, a psicossocial, eles devem mostrar à oposição venezuelana que estão dispostos a apoiar a única opção que verdadeiramente lhe resta: resistência. Civil antes de tudo, de resiliência na crença democrática.

Os países vizinhos devem acolher os representantes da oposição venezuelana, oferecendo-lhes amparo legal e diplomático para representarem nos fóruns internacionais a maioria da população que deseja o fim da ditadura chavista.

Essa é a única forma de sobrevivência da oposição enquanto não se dá a ruptura que a própria ditadura vai provocar. Sobrevivência moral acima de tudo, da qual depende o futuro da Venezuela pós-Maduro: democrática, pacífica e próspera.

É o que resta à Venezuela e aos seus vizinhos: resistir ao chavismo.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio