Opinião

O que mata


O massacre em Suzano nos leva a perguntar o que faz dois jovens de classe média atentar contra a vida, própria e de outros, com frieza e ferocidade características de assassinos profissionais


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Março de 2019 às 16:21

  | Historiador


O massacre de ontem (13/03) em Suzano nos leva a perguntar o que faz dois jovens de classe média atentar contra a vida, própria e de outros, com frieza e ferocidade características de assassinos profissionais.

Não há resposta fácil, ainda mais em um país no qual a verdade é assassinada diariamente pelos ideólogos da tragédia, fulminantes em seu maniqueísmo de fanáticos.

Um bom caminho para chegar às respostas difíceis é evitarmos os atalhos das respostas fáceis.  

O primeiro é assumir que a tara se defina pelo seu objeto, mera instrumentalização de algo mais profundo. Apelando aqui a um exemplo típico do populismo hedonista contemporâneo, seria como culpar os pés, os chicotes e as algemas pelo fetiche. As pessoas se definem pelo que fazem com eles, não por eles.

O segundo desvio é a nossa tendência em assumir acriticamente as notícias de acontecimentos assemelhados, de Columbine a Realengo, massacres em escolas de grande repercussão, e estatísticas, da Suíça ao Yemên, países com elevado percentual da população armada, embaralhando tudo para chegar às mesmas conclusões e culpas. Em vez disso, que tal perguntar como as sociedades com maior número de mortes por armas de fogo chegaram a tal ponto?

Nesse larguíssimo espectro de situações e circunstâncias, o que fica claro é a enorme distância que separa os países nos quais as armas são uma garantia de direitos e de paz social daqueles onde elas expressam uma precária garantia de sobrevivência.     

Quanto a esse aspecto, é bizantina a discussão armamentismo versus desarmamentismo no Brasil, um país no qual o controle de armas nada tem a ver com o número assustador de homicídios, simplesmente porque o Estado não controla coisa alguma em inúmeras e extensas áreas do seu território.

George Marshall, o Chefe de Estado Maior do Exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, nunca escondeu que jamais disparou, com ódio, um tiro em sua vida. Esse não foi o caso de muitos soldados, porém isso não impediu que ele, como um dos profissionais da violência mais importantes da História, enfrentasse e vencesse a maior guerra da Humanidade inspirada pelo pior dos ódios, o racial.  

É isso que mata de verdade: o ódio. Aquele que cresce a cada dia nesta sociedade contra ela mesma, e cuja primeira vítima é o bom senso.

FOTO: Thinkstock

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