Opinião

O que interessa


Se há um ponto realmente relevante nessa paralisação é a conclusão de que acabou o tempo de uma determinada forma de fazer política


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 26 de Maio de 2018 às 10:10

  | Historiador


O Brasil vem enfrentando erupções de desordem difíceis de diagnosticar em suas origens e motivações.

A paralisação e o bloqueio promovidos pelos transportadores é mais uma.

Aparentemente, ela se insere no quadro da rebelião de classe média que eclodiu no Brasil, da qual o impedimento de Dilma foi um capítulo, mas não o único. E tampouco o último.

Essa percepção é importante para nos darmos conta da gravidade do momento e, se ainda temos algum juízo, começar a nos perguntar seriamente o que está acontecendo.

Para quem pode apreciar os acontecimentos das últimas décadas no País com um mínimo de equilíbrio, resta evidente que a era petista foi a culminância do fracasso de um sistema político-econômico centrado na constituição de 1988.

Excessivo protagonismo de velhas raposas políticas, total descontrole dos partidos, clientelismo desbragado e uma dose cavalar de populismo de esquerda deram nisso aí: corrupção alimentada por dinheiro público, a raiz de todos os males que vivemos.

Essas foram as sementes do mal que deram os frutos amargos que hoje provamos. E que criaram raízes difíceis de arrancar.

É absurdo pensar que uma greve de transportadores, por mais justas que sejam as suas reivindicações, vá resolver o manicômio tributário em que se transformou o País.

E que inferniza a vida de todo mundo, indistintamente.

Por outro lado, se há um ponto realmente relevante nessa paralisação é a conclusão de que acabou o tempo de uma determinada forma de fazer política.

Não há outra maneira de obter consensos importantes em uma sociedade que não a política. Só através dela se delibera democraticamente o interesse comum.

Com a política que temos no Brasil, há de tudo, menos o atendimento ao interesse público.

Portanto, há que se reformá-la. Profunda e urgentemente. Quaisquer que sejam os vencedores das eleições de outubro.

A nossa frustração e indignação devem ser direcionadas para exigir essa reforma.

Não precisamos de mais caos. Já estamos nele, navegando em uma conjuntura internacional preocupante.

Internamente, temos serviços essenciais entrando em colapso, violência descontrolada, desconstrução das normas sociais e descrença nas instituições e lideranças.

Crimes e crises internacionais permeiam e rondam nossas fronteiras, além das quais se armam tempestades de difícil prognóstico.

Não é difícil prever que esses quadros vão se misturar. E desconfiar do quanto já estão.

De onde vem tanto caos? A quem interessa? Perguntas um tanto paranoicas que, na verdade, são irrelevantes.

Aos brasileiros interessa sim saber para onde o Brasil está indo. E que ele volte a funcionar. Como seu País.

FOTO: Tânia Rêgo/Agência Brasil

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