Opinião

O que ficou de pé


Numa cena que ficará gravada na História, ruiu não apenas parte da edificação que começou a ser erguida há mais de oito séculos


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 16 de Abril de 2019 às 09:27

  | Historiador


Iniciada em 1163, consagrada em 1182 e concluída em 1220, seguindo as diretrizes da arquitetura gótica já experimentada algumas décadas antes em Saint Dennis, a Catedral de Notre-Dame de Paris sobreviveu à Guerra dos Cem Anos, à fúria da Revolução Francesa e a duas guerras mundiais para ser quase consumida pelo mais inacreditável incêndio do inquietante século XXI.

Nesta segunda-feira (15/04), o que as redes sociais transmitiram foi a impotência da tecnologia, da urbanidade e da capacidade modernas em impedir que um dos mais importantes monumentos mundiais, situado no coração da nossa civilização, fosse tomado pelas chamas.

Materialmente, a Notre-Dame poderá ser restaurada, jamais reconstruída, a despeito das palavras de ânimo do presidente da França aos seus concidadãos.

Numa cena que ficará gravada na História, ruiu não apenas parte da edificação que começou a ser erguida há mais de oito séculos.

Quando desabou a flecha que encimava a catedral, uma peça de alto significado na arquitetura gótica, desapareceu mais do que uma exterioridade.

Para que ela tombasse, foi preciso que queimasse antes a charpente, a elaborada armação de madeira construída com troncos de carvalho do século VIII que sustentava a cúpula da igreja, o testemunho do trabalho artesanal dos arquitetos do século XII que nunca conseguiremos refazer.

Da mesma forma que não conseguimos construir e fazer navegar  uma caravela com os instrumentos coevos ou levantar uma fortificação com argamassa de conchas, óleo e gordura, embora saibamos que muito do que somos provenha da Idade Média, um dos “grandes períodos criativos do Ocidente, talvez o  mais importante, o mais decisivo” (LE GOFF, Jacques: SCHMITT, Jean Claude).

Na verdade, o que fez as catedrais góticas a partir da segunda metade do século XII transcende a sua própria construção.

A grande criação que emerge desse período foi o trabalho, como “afirmação das funções econômicas e culturais das cidades”, marcando para sempre a nossa civilização, elevando-a a um nível pré-industrial nos setores da construção e têxtil e a distinguindo definitivamente das demais.

Não bastasse isso, foram Léonin e Pérotin, músicos da Notre-Dame, cuja cátedra funcionava desde 1163, que criaram a polifonia, as muitas vozes da composição, “tidos como autores do primeiro livro de música em duas, três e quatro partes a circular em forma manuscrita” (BURROWS, John).

Assim, a despeito de nossa consternação pelo que desmoronou ontem em Paris,  a Notre-Dame permanece incólume em seu significado.

Ficou de pé a essência de uma civilização que precisa se reencontrar com seu passado para compreender a si mesma.