Opinião

O que esperar da revolução digital e da indústria 4.0 pós-coronavírus?


Nesse 'novo normal', teremos um mundo mais pobre no curto prazo. Mas, num segundo momento, o foco será a recuperação e uma aceleração mais forte na adoção e retomada de novas tecnologias


  Por Elton Monteiro  08 de Maio de 2020 às 11:06

  | Vice-presidente da Facesp


Antes de o novo coronavírus chegar e tomar nossa atenção de forma devastadora, estávamos experimentando diversas transformações no mundo da produção e dos negócios. A chamada indústria 4.0 vinha avançando cada vez mais rápido e as expectativas eram de que a convergência de tecnologias iriam provocar grandes impactos na sociedade.

Entre as principais tecnologias exploradas pela indústria 4.0 e que permitem a fusão dos mundos físico, digital e biológico são a manufatura aditiva, a IA, a IoT, a biologia sintética e os Sistemas Ciber Físicos (CPS). Essas novas tecnologias vinham sendo adotadas pelo mundo todo, inclusive pelo Brasil, com algumas dificuldades adicionais pelo histórico de adversidades enfrentado pelas indústrias, nas últimas décadas.

Porém, esse era o cenário pré-coronavírus. Hoje, especialistas no mundo todo vêm defendendo um mundo novo, um ‘novo normal’. mas o que seria isso realmente? Como esse novo mundo impactará a revolução digital e a indústria 4.0?

Acredito que teremos, inevitavelmente, um mundo mais pobre em curto prazo: muitos recursos previstos para pesquisa e desenvolvimento ou para investimentos em tecnologias disponíveis, serão destinados para sobrevivência e reforço do caixa.

Num segundo momento, nosso foco estará voltado para a recuperação. Assim, cada setor irá começar a avaliar como será a velocidade da retomada e o tamanho de cada mercado pós-pandemia. A partir daí, viveremos uma aceleração muito forte na adoção de novas tecnologias e, as transformações que já estavam em curso, serão retomadas.

O que me faz pensar desta forma? Posso enumerar três aspectos que me levam a imaginar o novo cenário pós-crise:

Fragilidades - As empresas foram forçadas a confrontarem suas deficiências sem qualquer filtro, ou seja, todas as burocracias corporativas foram deixadas de lado e tudo foi colocado em avaliação e revisão. Em algumas grandes corporações, a ineficiência é distribuída entre os vários níveis de hierárquicos que normalmente ficam protegidos por um corporativismo ou pela simples manutenção do status quo. Considerando a gravidade da pandemia e, por instinto
de sobrevivência, essas fragilidades são expostas e tratadas sem rodeios e com objetividade.

Medo - Os profissionais sairão mais corajosos para testar processos e tecnologias novas, sem mitigar, excessivamente, os riscos. Imagine o seguinte: em meados de fevereiro um CEO chega para uma empresa com três mil colaboradores e informa que em 15 dias eles deveriam migrar toda operação para home-office. Antes da pandemia, com muita pressão do CEO, acredito que esse projeto levaria uns dois anos para ser finalizado: o medo dos gestores de TI, RH, Jurídico e de outros departamentos, levariam a incontáveis reuniões de alinhamento para mitigar o medo da mudança em todas as esferas. Este aprendizado, com certeza, deixou as pessoas mais
abertas às mudanças.

Oportunidades - Com toda certeza, esse novo mundo, demandará soluções diferentes das habituais e, para que o mercado consiga atender às novas expectativas de consumo e comportamento, as organizações terão que se reinventarem, desenvolvendo soluções que atendam os novos paradigmas da cadeia produtiva e da população.

Agora, mais do que nunca, a revolução digital e a indústria 4.0 serão mais relevantes para organizações e para a construção de um novo mundo pós-pandemia. 

FOTO: Gerald Altmann/Pixabay