Opinião

O que é internacionalização de empresas?


Ao passar pelo processo de internacionalização, as empresas têm uma percepção muito clara de sua real competitividade


  Por Michel Abdo Alaby 08 de Março de 2021 às 14:10

  | Consultor de Comércio Exterior da Associação Comercial de São Paulo


Internacionalização de empresas é um processo pelo qual uma organização se prepara para poder participar de trocas econômicas entre países, se tornando operacionalmente capacitada a exportar ou importar produtos e serviços, expandindo seus negócios para o mercado externo.

O processo de internacionalização de empresas consiste em analisar e, se necessário, modificar processos internos para tornar as organizações capazes de atuar de maneira competitiva e eficiente nos mercados externos.

POR QUE INTERNACIONALIZAR UMA EMPRESA?

De maneira resumida, a grande vantagem de internacionalizar uma empresa é aumentar as possibilidades de ganho e diluir os riscos do negócio.

Os ganhos podem ser aumentados quando, pelo comércio exterior, uma empresa tem mais possibilidades de aumentar suas receitas vendendo em maior quantidade, ou com maior margem de lucro, para mercados de outros países. E, da mesma maneira, também pode comprar desses mercados com preços mais atrativos ou com diferenciais tecnológicos ou de qualidade.

Os riscos, por sua vez, podem ser diluídos quando se atua em vários países. A história mostrou que qualquer país pode entrar em crise econômica, mesmo os mais ricos e desenvolvidos. Isso já aconteceu com o Japão em 1990, a Coreia do Sul em 1997 e os Estados Unidos em 2008, além, é claro, do próprio Brasil em 2014. Empresas que atuavam unicamente em um desses países durante essas crises, receberam o impacto total delas, e foram severamente afetadas.

Ao atuar nos mercados de diversos países, as empresas internacionalizadas ficam menos expostas aos efeitos de crises, pois mesmo com uma economia globalizada, em que nenhuma economia é isolada do resto do mundo, os efeitos são mais brandos em alguns países do que em outros, por diversas razões. 

É importante sempre lembrar que, embora fugir das crises econômicas seja um impulso para se procurar o comércio exterior, a internacionalização de empresas é um processo que traz os seus maiores ganhos nos médio e longo prazos. Por isso, não deve ser visto como um alívio momentâneo para uma época de dificuldades no mercado interno, mas como parte importante da estratégia da empresa.

OUTRAS VANTAGENS DA INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS

Além da conquista de outros mercados com a diversificação da possibilidade de ganhos, e da diluição de riscos, existem outras vantagens na internacionalização.

Modernização da empresa – A internacionalização consiste em tornar a empresa uma organização capaz de atuar no nível de performance exigido pelos mercados internacionais. O simples fato de passar por esse processo tem um efeito positivo na performance da empresa, que se vê obrigada a revisar práticas e processos que poderiam estar ultrapassados. 

Aprendizado e capacitação – Embora o empresariado brasileiro tenha desenvolvido uma incrível resiliência depois de ter lidado com tantas crises, é inegável que em vários setores da economia existem competidores estrangeiros que estão na nossa frente, e é importante termos a humildade e o bom-senso de reconhecer isso.

Ao passar pelo processo de internacionalização, as empresas têm uma percepção muito clara de sua real competitividade, e do quanto precisam investir, ou não, em capacitação de mão de obra, processos, marketing e muitos outros fatores competitivos.

Atualização tecnológica – A internacionalização de empresas permite que se tenha também noção do estágio de desenvolvimento tecnológico que o setor está, orientando os investimentos que a organização precisará fazer e também para que ela tenha tempo de decidir onde irá buscar essa atualização: se a tecnologia deverá ser importada, se ela existe no mercado brasileiro e precisará, ou não, de adaptação, ou se uma solução interna é viável.

Redução da carga tributária – A lei brasileira oferece uma série de incentivos fiscais para quem exporta, como por exemplo o drawback, em que são isentos ou suspensos os impostos sobre os insumos nacionais ou importados que serão utilizados na produção de um produto que será exportado.

Economia de escala – Quando se consegue vender o mesmo produto para mais mercados, é possível produzir em maior quantidade e ter economia de escala, com a consequente redução de custos unitários.

Redução de custos de compra – Ao colocar as importações dentro de suas possibilidades de compra, é possível aumentar a quantidade de possíveis fornecedores e negociar melhores preços, prazos e condições de compra.

Valor da Marca no mercado interno – Marcas que se internacionalizam e são vendidas em outros países, e produtos que são exportados e bem aceitos no mercado externo, têm uma melhor percepção de valor por parte dos consumidores brasileiros.

Um exemplo clássico é o das sandálias havaianas, um notável case de sucesso em reposicionamento de marca, que deixou de ser exclusivamente destinado ao consumidor de baixa renda para ser universal, sendo comprada, em suas várias configurações, por um público amplo, que vai da classe C ao triple A.

É inegável que o fato de as Havaianas serem vendidas e bem aceitas em mercados exigentes e que lançam tendências, como o americano e o europeu, contribuiu para essa percepção de valor do consumidor brasileiro.

FORMAS DE EXPORTAR E IMPORTAR

Existem diversas modalidades de comércio exterior em que uma empresa pode importar ou exportar:

Direta – Feita pela própria empresa internacionalizada, com total controle de todo o processo.

Indireta – Feita através de intermediários que podem ser empresas comerciais exportadoras ou trading companies.

Na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) temos o Conselho de Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (CECIEX), entidade jurídica própria que agrega 930 empresas associadas atuantes em diversos seguimentos da indústria e prestação de serviços de comércio exterior, as quais poderão ser consultadas para viabilizar seus negócios.

TRADING COMPANIES X COMERCIAIS EXPORTADORAS

As principais diferenças entre trading companies e comerciais exportadores são o capital e a natureza jurídica.

Tradings têm capital maior e assumem mais responsabilidades e riscos, geralmente comprando, estocando e vendendo para o mercado externo. Enquanto as empresas comerciais exportadoras podem atuar como representante da indústria ou compram a mercadoria com o destino exclusivo de exportação. Ou seja, só fazem operações com a indústria quando já têm comprador para a mercadoria.

OUTRAS FORMAS DE INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS

As formas mais conhecidas de internacionalizar uma empresa são a exportação e a importação, mas existem outras que listaremos a seguir:

Contrato de produção - Quando uma empresa decide produzir no exterior, e precisa encontrar o parceiro que irá efetivamente fabricar o produto.

Subcontratação - Também é uma forma de produção no exterior. Parece muito com a produção no exterior, com a diferença de que apenas partes da produção será feita fora, com base nas especificações que a empresa brasileira envia.

Licenciamento - Consiste em comprar o direito de produção e venda de um produto ou serviço estrangeiro no mercado brasileiro, bem como o uso da marca. E no sentido oposto, vender esses direitos para que empresas estrangeiras façam isso com produtos ou marcas brasileiras no exterior.

Franchising - A diferença da franchising para o licenciamento é que o primeiro inclui a imposição contratual ao franqueado de padrões, normas e procedimentos por parte do franqueador, em troca da transferência de tecnologia, know-how e da assistência constante.

Transferência de tecnologia - Nesse formato, se adquire know-how e direitos de propriedade industrial, e eventualmente equipamentos, assistência técnica e treinamento

INTERNACIONALIZAÇÃO DE EMPRESAS NA PANDEMIA

A pandemia de covid-19 está sendo um evento de escala global, que atingiu todos os países do mundo praticamente ao mesmo tempo, como não se via desde a chamada Gripe Espanhola, há mais de 100 anos. Afetou o comércio internacional, mas não é o tipo do evento que ocorre com frequência, felizmente.

Por isso, o fato de todos os países serem atingidos e entrarem em crise simultaneamente não põe em xeque as vantagens da internacionalização de empresas. Muito pelo contrário, as aumenta e evidencia.

A velocidade da recuperação econômica de cada país dependerá muito da capacidade dos governos de injetarem dinheiro em suas economias. Países como o Brasil, que têm uma situação fiscal delicada, têm passado dificuldades para arrumar os recursos necessários. Por outro lado, países que têm situações fiscais melhores já estão fazendo as injeções de dinheiro em suas economias e se recuperando mais rápido.

Nessa situação, empresas que já estão internacionalizadas e atuam nas economias mais estáveis conseguem se beneficiar da injeção de dinheiro, enquanto aquelas que estão restritas ao mercado brasileiro dependerão do ritmo com que a economia brasileira conseguir se recuperar.

 

IMAGEM: Thinkstock





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