Opinião

O pós-lulopetismo


Daqui para frente, não será mais possível governar pretendendo se impor ao País, usando de que meios for, muito menos daqueles que o PT usou e abusou nestes treze anos


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 31 de Maio de 2016 às 16:00

  | Historiador


O fim do lulopetismo coloca desafios inéditos à direita e à esquerda no Brasil. Para a esquerda, depois do fracasso do projeto de poder do PT baseado em populismo, cooptação e autoritarismo, resta reinventar-se. Para a direita, dividida entre o mais puro adesismo e um amargo ostracismo, é a hora de assumir-se como alternativa de exercício do poder depois de vinte e um anos de governos de esquerda. E tanto a esquerda populista quanto a direita adesista têm que pagar o preço do exercício e do desfrute do poder, tanto um como outros derivados da corrupção.

Mas o ineditismo dos desafios políticos decorre de uma grande novidade no cenário nacional: a mobilização política da população. Daqui para frente, não será mais possível governar pretendendo se impor ao País, usando de que meios for, muito menos daqueles que o PT usou e abusou nestes treze anos. Disso há resultantes, é claro. Nenhum político de renome hoje ousaria desprezar o papel das ruas nos acontecimentos em curso. Todos sabem que estão sendo observados e nenhum deles, de esquerda ou de direita, quer arriscar provocar um novo rugido das ruas.

Houve uma “primavera brasileira”? Talvez. Seja lá que nome se dê a essas mudanças em curso, a mera referência à primavera árabe ajuda a entender o que ocorreu por aqui desde 2014. A melhor explicação para o sucesso das manifestações estaria no seu foco: as instituições. Congresso, Justiça e Forças Armadas, que em algum momento, de alguma forma, cederam ao aparelhamento petista, quando foram sacudidas, cada uma à sua maneira, e dentro dos preceitos constitucionais, responderam positivamente ao apelo da sociedade. Em outras plagas elas não existiam, ou estavam já neutralizadas, ou simplesmente ignoraram o apelo da sociedade.  Felizmente isso não ocorreu no Brasil. Existe um caminho a ser seguido.

Possivelmente, no futuro, os historiadores registrem que em 2016 nasceu, de parto natural, a 7a República no Brasil, num processo que guardou semelhanças ao ocorrido na Itália após a Operação Mãos Limpas, consumado na 2a república, resultado direto da manifestação dos eleitores que enterraram a velha estrutura partidária daquele país.

Mas se a interpretação histórica pertence ao futuro, nós, contemporâneos, estamos sempre nos remetendo a esse futuro a partir de decisões tomadas com base na compreensão do presente.

Há uma reorientação ideológica no Brasil, porém em busca de um equilíbrio em torno do centro. Esse realinhamento se dá por sobre um conjunto de reinvindicações que não têm carimbo necessariamente ideológico: moralidade, transparência e competência. Há outras, de cores mais vivas, como o repúdio à política bolivariana do PT, sintetizada no grito de guerra “a nossa bandeira jamais será vermelha”. Mas mesmo essa reinvindicação não é originalmente ideológica. Afinal, desde quando o patriotismo seria uma exclusividade da direita?

A resposta aponta o quanto a esquerda brasileira se afastou dos princípios comuns e essenciais à República. Não somente em relação ao patriotismo, mas também à ética, à moral e à paz social. A esquerda que institucionalizou a corrupção e insistiu em uma agenda ideológica deslocada da realidade brasileira falhou fragorosamente na promoção do bem comum.

Por conseguinte, a sociedade brasileira não é ou não “está” conservadora, muito menos reacionária. Foi a esquerda que se afastou das expectativas da sociedade, expectativas aliás perfeitamente razoáveis. Por sinal, quem se mostra reacionária é a esquerda, mesmo na sua versão chique, ainda agarrada à visão da sociedade de classes e da dialética da dominação.

Nesses seus resmungos de desorientação, que poderiam ser tomados por uma causerie de intelectuais com causa e sem responsabilidade, a esquerda denota a sua incapacidade de interpretar o que está ocorrendo no País.

A esquerda sempre foi muito hábil em deslocar o debate para o campo que lhe convém. Talvez por isso, de tanto pular de galho em galho, ela tenha perdido, mais do que a identidade, o protagonismo construtivo na sociedade. Obcecada pela dialética, explorou todas as contradições, todos os conflitos, todos os antagonismos até contrariar a si mesma. Dito de outra forma, não havia como dar certo.

Agora, o grande desafio para a esquerda, pelo menos aquela que obrigatoriamente deve participar do jogo democrático no marco do Estado de Direito no Brasil, é enterrar o seu passado de terrorismo, por fim ao seu presente de corporativismo e abandonar o seu futuro de revolução, para assumir o seu ideário histórico de redução das desigualdades.

Mas para isso a esquerda precisa cortar a grande amarra que ainda a mantém presa ao passado e que a impede de enxergar seu papel legítimo na democracia brasileira. A igualdade não se opõe à liberdade. Só são iguais os que são livres para sê-lo, e não por determinação de uns que dirão a todos de que igualdade fazem parte.

As pessoas livres se encontram numa só igualdade, a da cidadania, que as torna iguais perante a Lei, independentemente de qualquer condição, como reza a Constituição.

É o que os brasileiros são. Foi o que os levou às ruas. É o que haverá de ser sempre lembrado por aqueles que os servem e os representam.