Opinião

O partido da imprensa


Inspirando-se no seu patrono, Hipólito da Costa, a imprensa deve deixar de ser um partido para tomar partido do Brasil


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 12 de Setembro de 2018 às 19:15

  | Historiador


À medida que se desenrola o drama da campanha eleitoral, fica cada vez mais claro o que está em jogo nesse pleito: mudança, não mais uma opção, mas sim um imperativo diante da gravidade da situação do País.

O que não está tão evidente é qual mudança desejam os principais candidatos agrupados nas grandes correntes ideológicas.   

A esquerda não quer a mudança burguesa, ela quer a sua, radical. Como sabe que não tem poder para isso, aposta que, sem mudança, o agravamento da situação vai criar as condições para ela impor a sua, revolucionária sem revolução. Quer que o País afunde para refazê-lo em sua utopia.

O centro sequestrado pela corrupção fala em mudança, mas teme as perdas que ela lhe acarretará. Com recursos e poder, faltam-lhe vontade e credibilidade. Espera a mudança de ventos sem querer chegar a lugar algum, apenas se mantendo na ponte de comando, mesmo enquanto afunda.

A direita quer mudança, mas, afastada do poder há décadas, duvida-se de sua capacidade de mudar o rumo em mar grosso com uma tripulação política de amotinados e malandros. Usa a bússola da razão para mostrar que seus cálculos estão certos, mas ainda não convenceu a maioria dos tripulantes e passageiros que vão naufragar todos.

A gravidade da situação está na perspectiva de esse quadro não dizer respeito apenas à incerteza deste momento, mas, pior, consumar-se após as eleições nas quais o País deposita tantas esperanças para a superação da crise que enfrenta.

Flerta-se com o impeachment de um presidente que nem foi eleito e se questiona antecipadamente a legitimidade de qualquer um que venha a sê-lo.

É a profecia que se auto-realiza no caos.

Ela não surgiu do nada. É produto da corrupção, do crime e do radicalismo, alcançando agora, graças à inacreditável omissão das autoridades eleitorais, a segurança das urnas eletrônicas.

E essa lacuna de confiança da sociedade brasileira se completa com a transformação da grande imprensa em partido, ideologicamente alinhada à esquerda.  

A sua postura na campanha presidencial está mais do que evidente, desde as pautas jornalísticas até a formatação e condução de entrevistas e debates com os candidatos.

Os que o partido da imprensa vê como opositores são confrontados pelos entrevistadores já na disposição do ambiente do estúdio e submetidos a uma larguíssima pauta de questionamentos jamais cogitada para seus adversários, que têm licença para repetir platitudes e visibilidade para lançar ofensas e impropérios, como se viu hoje da parte de um desqualificado que tem a desfaçatez de se apresentar como candidato a presidente da República.

Dublês de intelectuais que se pretendem jornalistas desempenham nessas entrevistas um papel caricato com sua cultura de almanaque.

Uns falam como constitucionalistas do absurdo, negando qualquer papel constitucional das Forças Armadas, como se a Constituição Federal por si só salvaguardasse o País da tempestade que se avizinha.

Esquecem-se do quanto deve a evolução politica do País à maturidade de suas Forças Armadas. A mesma questão sucessória que levou a uma revolução no País em 1893, quase cem anos depois, foi resolvida pela atuação politica do Ministro do Exército sem o menor sobressalto.

Outros, explorando o filão aparentemente inesgotável da ditatura militar, na verdade doutos de fancaria fantasiados de liberais, pretendem dar lições de História, afirmando absurdos como o de Costa Silva ter fechado o Congresso em novembro de 1968, antes do AI-5.

Esquecem-se que foi o presidente da República que convocou o Congresso para votar, dentre outros assuntos, a licença para processar um deputado que, protegido pela imunidade parlamentar, ofendera o Exército; licença negada no dia 12 de dezembro pelos deputados que à noite foram comemorar não se sabe bem o quê no Hotel Nacional em Brasília.

Repisam a mesma nota que qualquer candidato de formação militar é por natureza estatista, pretendendo lhes dar lições de economia de mercado que desconhecem e nas quais jamais acreditaram.

Esquecem-se  o quanto o Brasil deve ao avanço liberalizante da Constituição de 1967, promulgada no governo Castello Branco, cujo projeto foi analisado por juristas de renome como Miguel Reale e Seabra Fagundes, recebeu 1.800 emendas, muitas da oposição, e deu ao País a única carta anti-inflacionária e privatista que ele já teve, prova maior de que um governo com autoridade moral pode sim negociar e fazer reformas, mesmo diante de um Congresso hostil.

Do aqui ligeiramente elencado, conclui-se que é improvável se deverem tantos falseamentos da História a esquecimentos. É melhor buscar onde foi traçada, com rancor e preconceito, a linha demarcatória entre a ignorância e a má fé.

De toda forma uma coisa é certa, esse não é o papel que se espera da imprensa. O que está acontecendo pode ser várias coisas: política, ideologia, militância ou até negócio, mas  jornalismo não é.

Uma imprensa livre, forte e independente é apanágio da democracia. Pode-se dizer mesmo que, sem fazer parte do Estado, ela é uma das condições daquele democrático e de Direito.

O Brasil deve muito à sua imprensa, desde quando o seu maior jornalista, Hipólito da Costa, tomou o partido do País para fazê-lo independente. No entanto, quando atuou como partido, a imprensa fez estragos. Já foi estopim de revoluções e pretendeu escrever a Constituição.

Hoje, é veículo de desinformação e causa primeira das fake news, dependente que é do dinheiro público e dos interesses inconfessáveis que o controlam.  

Isso precisa mudar, justamente em nome da liberdade de imprensa.

Inspirando-se no seu patrono, a imprensa deve deixar de ser um partido para tomar partido do Brasil.   

Antes que cheguemos às rochas.

 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio