Opinião

O novo ouro nas empresas está nos ativos intangíveis


Hoje há excesso de informações charmosas e apelativas nos informes encaminhados para os interessados no mercado de ações de companhias abertas, e de pouco valor para fundamentar os ativos intangíveis


  Por Charles Holland 03 de Julho de 2020 às 19:04

  | Contador, empresário, conselheiro independente de empresas, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC)


Os ativos intangíveis hoje em dia representam mais de 80% do valor das empresas da nova economia, inclusive no Brasil. Na maioria dos casos, não estão contabilizados. Há 30 anos, os mesmos eram imateriais, ou pouco relevantes. Os ativos intangíveis das empresas, mesmo valendo muito, continuam negligenciados. A maioria dos dirigentes das empresas e as governanças das empresas formaram-se no milênio passado. Continuam focando majoritariamente nos ativos tangíveis líquidos. Administram mal ou precariamente os ativos intangíveis. Muitos, nem consideram esses ativos nos seus pensamentos e prioridades. 

Quanto valem os ativos intangíveis? É definido pelo mercado quando são de capital aberto, negociados em bolsa. É resultante das diferenças apuradas entre o valor de mercado das empresas com base nos preços praticados e negociados diariamente nas Bolsas de Valores, com os respectivos valores divulgados no patrimônio líquido contábil das mesmas. O mercado considera o valor justo o apurado usando os preços correntes dessas ações negociadas nas Bolsas de Valores.

O que são esses ativos intangíveis que fundamentam valor? Entre muitos outros (milhares), os principais são vantagens competitivas reconhecidas nos processos macro e micro de produção, vendas, administração e finanças, diferenciais decorrentes de uso de aplicações de inteligência artificial, integração de processos de automação, formas inovadoras e inspiradoras de liderança, vendas, produção, logística, marketing, atração e retenção de talentos, políticas inspiradoras de sustentabilidade e de treinamento, imagem de idoneidade e de responsabilidade, reputação, qualidade e agilidade dos processos e de serviços, etc. Todos têm valor, frequentemente bem mais do que os ativos tangíveis contabilizados nas empresas (dinheiro, imóveis, máquinas, etc.)

Quais os motivos para conhecê-los e monitorá-los? Isso é aplicável para todas as empresas de capital fechado. Melhorar a qualidade de monitoramento dos principais criadores de valor, a maioria não contabilizados. O que é medido e acompanhado, cresce e prospera.

A maioria dos ativos intangíveis é volátil, e de natureza subjetiva, e  não estão contabilizados.  Nada justifica, todavia, continuar ignorando-os.

Abaixo cito uma amostra do tamanho dos ativos intangíveis de quatro empresas de capital aberto no Brasil do setor do varejo, todas exemplares, em 5 de junho de 2020. Valores expressos em bilhões de R$.

Os patrimônios líquidos contábeis acima dessas quatro empresas brasileiras no setor do varejo representam uma pequena fração em relação aos seus valores de mercado. 

A administração e a governança das empresas dão ampla divulgação do conteúdo das demonstrações financeiras – tudo que está contabilizado ou no radar contábil para dar os esclarecimentos adicionais, exigidos para serem divulgados nas demonstrações financeiras, press releases, formulários de referencia, 10-K (SEC – EUA), etc.

As diferenças entre o valor de mercado das empresas listadas com os respectivos patrimônios líquidos contábeis até décadas passadas não eram materiais. Temos agora um grande desafio pela frente.

Todas as atuais empresas listadas bem avaliadas no mercado têm diferenciais competitivos enormes que fundamentam confiança de geração de resultados e fluxos de caixa futuros substanciais. As empresas mais bem avaliadas usam inteligência artificial, novas tecnologias, facilitadores eletrônicos, lideranças inspiradoras, processos inovadores e novas formas de motivação, etc.

Aprender a quantificar e explicar melhor os valores dos ativos intangíveis não contabilizados abrirá um novo campo de trabalho e de ciências para muitos especialistas, acadêmicos e pesquisadores.

Atualmente há poucas explicações fundamentadas no mercado para projeção do valor de preço futuro das ações – que é muito usado pelos analistas e conselheiros de investimentos para orientar os investidores a comprarem ou venderem ações. Ninguém faz questionamentos técnicos para abrir as caixas pretas de avaliações feitas pelos analistas.  

Bilhões são gastos para registrar, analisar e reportar os valores contábeis das empresas. Pouco é gasto para fundamentar tecnicamente os valores não contabilizados.

Os ativos biológicos - reflorestamentos, plantações e criações de animais - eram até décadas passadas contabilizados e reconhecidos de forma insatisfatória. Agora, com uso de especialistas e novas tecnologias, as valorizações são feitas e reconhecidas em bases técnicas. Os mesmos problemas existiam sobre reservas minerais.

As cinco empresas mais valiosas a valor de mercado com base nas cotações de bolsa em 22 de junho de 2020 são Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet (Google) e Facebook. As mesmas valiam na época a preço de mercado US$ 6.023 bilhões. As mesmas acumulavam com base nos patrimônios líquidos auditados na época US$ 556 bilhões. Os ativos intangíveis dessas cinco empresas montavam US$ 5.536 bilhões, a maioria não reconhecidas contabilmente.

Os administradores, os contadores, auditores, investidores e todo público interessado dispendem muito tempo entendendo os ativos líquidos contábeis - como no caso acima que representa 9% do valor de mercado das empresas acima citadas -, e muito pouco sobre os 91% do valor de mercado não auditado.  

Hoje não existe, nem está no radar da nossa profissão, começar a estudar como quantificar de forma razoável os ativos intangíveis não contabilizados das empresas.

Quantificar os principais componentes dos ativos intangíveis nas empresas considerando que há muita subjetividade nos milhares de fatores influenciadores, muitos deles fora de nossos controles, são um desafio. Mas longe de ser impossível, com uso de inteligência artificial, capacidade de computação e de recursos de informações e dados, quase ilimitados.

O mercado quer mais informações quantificadas sobre os principais componentes incluídos nos ativos intangíveis das empresas. Os pioneiros que conseguirem atender as demandas do mercado, dando informações quantificadas sobre os componentes incluídos nos ativos intangíveis, serão bem remunerados e reconhecidos.

O mercado está ávido para conhecerem os acionadores de valores “drivers” contidos dentro dos ativos intangíveis, mesmo que de longe. Hoje se contentariam com informações na direção certa. Preferível discutir e entender os principais acionadores de valores contidos nos ativos intangíveis nas empresas e quantificar precariamente os seus principais componentes, do que continuar omitindo-se.

O mercado quer receber informações do que está na caixa preta, mesmo que seja precária, sem ter expectativas nesta fase de experimentação das mesmas serem auditadas, precisas, etc. Sabemos que decorrem de julgamentos subjetivos. O mercado quer entender nesta fase de experimentação e aprendizado coletivo a razoabilidade dos ativos intangíveis nas empresas, hoje tratado como caixa preta por todos envolvidos na governança das empresas. E também por todos interessados e com interesses no mercado de capitais.

Hoje há excesso de informações charmosas e apelativas nos informes encaminhados para os interessados no mercado de ações de companhias abertas, e de pouco valor para fundamentar os ativos intangíveis. Poucos no mercado estão reclamando da carência e da qualidade de informações para fundamentar os ativos intangíveis.

A Lei de Parkinson mostra que todos investem muito tempo naquilo que entendem, e nada ou quase nada, onde nada ou pouco entendem,

O problema é que os ativos intangíveis hoje em dia representam mais de 80% do valor das empresas da nova economia, inclusive no Brasil. 

Finalizando. O novo ouro nas empresas está nos ativos intangíveis.

 

 **As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio