Opinião

O mundo não é plano no comércio do Marrocos


Estamos entrando na nova fronteira das relações comerciais que se definem pelo valor da experiência do consumo


  Por Rosa Alegria 26 de Julho de 2016 às 18:02

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


Acabo de   voltar de uma viagem  ao Marrocos. Depois de 4 dias de trabalho, reservei uns dias para conhecer um pouco do país das  cores, sabores, odores, caldeirão de culturas que conheci através do seu rico universo comercial. 

Tudo permanece vivo no museu da minha memória. Conhecer os centros comerciais do Marrocos é viver experiências multi-sensoriais inigualáveis,  dificeis de esquecer. Nada como ativar as sensações  para compreender o universo real de um mundo e suas pulsações culturais.

Nos souks  (vielas comerciais estreitas das medinas), a radical variedade dos mercados, seja em Rabat (a capital) ou Marrakesch (o principal centro turístico)  tapetes majestosos, objetos de couro, frutas secas, artesanato de metal e madeira, diretamente da fonte. Antes de comprar, você tem o contato direto com o produtor. 

Quer comprar um sapato? É preciso saber como tudo começou e ter contato com o couro curtido antes de receber a tintura. 

Tudo começa com um chá de hortelã delicioso e uma exposição dos diferentes couros, matéria-prima da produção. Conversar com o  vendedor-produtor-artesão  é beber um pouco da fonte de conhecimento da cultura local, conhecer como ele vive, conversar gente de sua familia, tocar, ouvir, cheirar, provar. 

Faz bem para a alma conhecer os tintureiros com seus novelos de lã pendurados e multicoloridos por pigmentos naturais de  azul-anil, açafrão, menta silvestre, papoula, pétalas de rosa, flores de rubia, malva, romã  e o cobalto. 

Ao longo da caminhada, sentem-se odores, sabores e cores que tornam mais legítima a experiência da compra.  

Faz parte da cultura barganhar. A barganha  é sofisticada porque tem tecnicas teatrais que vendedor utiliza e que te impelem também a teatralizar.  Nestes souks há também os cabeleireiros, dentistas, adivinhos, escreventes e tudo o que faz parte da vida e seus múltiplos sentidos. 

As ervas e as especiarias são expostas em salas multicoloridas que acomodam os interessados para ouvir do próprio produtor-vendedor  como se preparam e para que serve cada uma.

Coentro, açafrão, cominho, pimenta, gengibre, noz-moscada, canela, funcho, harissa, páprica e cúrcuma são alguns dos temperos usados na mesa marroquina.

O herborismo faz parte da cultura comercial envolvendo  plantas aromáticas com propriedades medicinais. Em qualquer souk encontram-se prateleiras coloridas e bem organizadas  de temperos e de ervas aromáticas.

Produtos de beleza produzidos com ingredientes milenares, como por exemplo, a henna,  desde sempre utilizada por civilizações milenares. Aos deliciosos sucos (puros sucos de laranja) nenhum turista resiste.

Batons, perfumes, óleos, delineadores, tantas cores e aromas, âmbar, jasmim, sândalo, são múltiplas tentações femininas.

Na compra do creme de argan, castanha conhecida pelo seu óleo de efeitos cosméticos milagrosos, você sente a textura, o perfume e antes de tudo, vai ver como ele é feito pelas artesãs das cooperativas locais.

Foi no Marrocos que aprendi o que é uma verdadeira experiência de compra valorizada pelas sensações e culturas  pulsando intensamente em cada ponto de venda de uma Medina. 

Experiência de compra personalizada é essa que eu vivi no Marrocos. Não teve branding global,  nem   ar condicionado, nem decoração de flores e mármore,  nem o perfume francês borrifado nas lojas dos shoppings. 

Porque os shoppings anestesiam nossas sensações, nos distanciam do que é real  e nos fazem sentir liquefeitos dentro de uma experiência impessoal e homogênea.  
Comprar em Shoppings é blindar-se de experiências sensoriais e culturais tão deliciosas como as que vivi nos souks do Marrocos. 

A sensação de estar num shopping de São Paulo é a mesma de estar num Shopping de Londres ou de Cingapura. Todos os consumidores parecem iguais, as lojas iguais,  como se  o mundo fosse plano. Imagine-se tendo um surto de amnésia, de repente você se vê dentro de um shopping. Em que cidade você está? Impossível identificar.

Visitar paises como o Marrocos é entrar em contato com o que é possível identificar e (aqui contrariando Thomas Friedman), constatar que o mundo não é plano como o mundo dos shoppings.

Nem todos estamos rendidos às marcas globais que nos separam da beleza que é ser o que somos e o que sentimos. Existem saídas para oxigenar as vias comerciais dos grandes centros.

Algumas das marcas globais (Unilever, Nike e Coca-Cola)  já despertaram para o valor dessa experiência, regionalizando suas marcas em diferentes pontos do planeta.

Mas ainda existem inúmeras oportunidades de  enriquecerem a experiência e a troca relacional entre quem compra e quem vende. 

Estamos entrando na nova fronteira das relações comerciais que se  definem pelo valor da experiência do consumo.

O que vai gerar real valor será a qualidade dessa experiência, seja ela rústica, como a que vivi no Marrocos,  ou intermediada pelas novas tecnologias (impressoras 3D,  carros autônomos,  decodificação do genoma, roupas funcionais, robôs,  Internet das Coisas,  realidade virtual, entre outras). 

O futuro do varejo será pautado pelo tempo que uma experiência de compra ficará positivamente marcada na memória dos consumidores, tendo em vista o imenso território sensorial e emocional ainda não explorado.  Os centros comerciais das grandes metrópoles têm muito o que aprender com os souks do Marrocos.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio






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