Opinião

O "mistério" da inflação resistente


O Governo só piorou a situação tentando, inutilmente, a partir do “congelamento” ou “represamento” dos preços administrados, conter a aceleração


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 26 de Fevereiro de 2016 às 21:05

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


“Chocam ovos de basilisco, e tecem teias de aranha; o que comer dos ovos deles morrerá; e, quebrando-os, sairá uma víbora ”
(Isaías 59:5)

Depois de “quebrar” a “barreira psicológica” dos dois dígitos no ano passado, a inflação continuou aumentando em janeiro, e, a julgar pela prévia da primeira quinzena de fevereiro, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), calculado pelo IBGE, “pisará” ainda mais no “acelerador” no segundo mês do ano.

Muita gente se pergunta por que os aumentos de preços são cada vez maiores e mais espraiados, mesmo frente à recessão brutal que o país atravessa, que já se reflete em expressivas quedas no consumo das famílias e no investimento produtivo das empresas.

Ao mesmo tempo, os fortíssimos reajustes dos preços administrados pelo Governo, tais como as tarifas elétricas e do transporte público, o preço da gasolina, e, de certa forma, o câmbio, que geraram intensa pressão sobre os custos, e, finalmente, sobre os preços finais de bens e serviços durante 2015, deverão ser bastante menores este ano.

Sendo assim, por que a inflação brasileira parece ser tão “resistente”? Recentemente, o banco Barclay’s concluiu que o Brasil é o país emergente em que esta apresenta o maior grau de persistência.

Desse modo, elevações de preços, ainda que sejam temporárias, como podem ser, por exemplo, aquelas provocadas nos produtos agrícolas por secas ou excesso de chuvas, tendem a produzir altas no custo de vida durante vários períodos.

Para explicar esse “mistério”, devemos lembrar que, após décadas de convivência com altíssimas taxas de inflação, foram criados mecanismos de correção monetária (indexação, no jargão) para compensar a perda de poder aquisitivo de famílias, empresas, e do próprio Governo.

Isto permitia que a economia não entrasse em “colapso” total, porém, tal como no caso da pessoa que, a cada simples resfriado, toma antibióticos, após sucessivos usos do “remédio”, o “organismo econômico” passava a requerer mais indexação, realimentando cada vez mais o processo de aumento dos preços. Ou seja, a correção monetária termina fazendo com que a inflação seja mais persistente, criando uma espécie de “inércia”.

É importante esclarecer que essa “inércia” atua sempre como elemento de realimentação dos aumentos de preços, jamais podendo corresponder à causa básica da inflação, como equivocadamente se diagnosticou nos anos oitenta, à época do Plano Cruzado.

Em outras palavras, a inflação não pode ser, logicamente, um fenômeno de “combustão espontânea” (o “motor imóvel” de Aristóteles?), possui sempre uma causa inicial (impulso), geralmente associada a excesso de gastos ou elevação de custos.

Como bem anteviu um dos maiores economistas brasileiros, Mário Henrique Simonsen, o Plano Real, apesar de ter tido êxito no combate à inflação, não conseguiu erradicar completamente os mecanismos de correção monetária, deixando-os tal como “ovos de serpente”, na feliz expressão do economista, prontos a ressurgir frente a novos impulsos inflacionários.

Esses dispositivos foram, inclusive, ampliados com a introdução da nova regra de reajuste do salário mínimo, no final do segundo mandato do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, baseada no crescimento da atividade econômica (PIB) e na variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

Vale notar também que, além da correção monetária formal, tal como a regra mencionada acima, ou mesmo o reajuste de alugueis segundo índices de preços mais gerais (tipicamente o Índice Geral de Preços do Mercado – IGP-M), entre outros, existem também mecanismos informais de reposição de perdas de poder aquisitivo, que se manifestam nos simples aumentos de preços e salários, decorrentes das elevações das expectativas de inflação.

Quanto menos confiamos na capacidade do Banco Central em manter a inflação baixa, maiores serão esses reajustes, gerando outro “foco” de realimentação do processo inflacionário.

Podemos esclarecer, por fim, o “mistério” da atual resistência dos aumentos de preços no Brasil. Na medida em que, a partir de 2010, houve aceleração da inflação, devido ao crescimento excessivo de gastos públicos e privados, os mecanismos formais de correção monetária passaram a ser cada vez mais atuantes, “estacionando” a inflação em patamares cada vez maiores.

O Governo só piorou a situação tentando, inutilmente, a partir do “congelamento” ou “represamento” dos preços administrados, conter essa aceleração, vendo-se obrigado, ao final, a praticar um “tarifaço” no ano passado, o que deu novo impulso ao aumento dos preços e à indexação.

Paralelamente, a progressiva perda de confiança na política econômica, e em especial na política monetária, a partir de 2011, produziu aumentos sucessivos das expectativas de inflação “reacendendo a chama” dos reajustes informais de preços.

A própria autoridade monetária, em seu Relatório de Inflação, estima que, em 2014, quase 22% da variação do IPCA correspondeu aos efeitos da “inércia” e das expectativas, proporção que vem crescendo apreciavelmente desde 2012, quando não passava de 12%.

Para não repetir nosso passado trágico de inflação endêmica será necessário, em primeiro lugar, ajustar as contas públicas, eliminando com isso uma das principais fontes primárias dos aumentos de preços, que podem fazer a “serpente sair do ovo”, gerando persistência de seus impactos sobre o custo de vida.

Além disso, é também urgente recuperar a credibilidade do sistema de metas de inflação, a partir de outorgar efetiva autonomia política à autoridade monetária, para que realmente seja possível reduzir as expectativas inflacionárias, inibindo, de forma natural, o uso de mecanismos informais de correção de preços.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 





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