Opinião

O leão na selva


Tenho acompanhado com tristeza o sofrimento de pessoas que estão sendo obrigadas a passar por verdadeiras transformações. E, acredito que pisar na selva pela primeira vez pode ser assustador


  Por Alessandra Andrade 28 de Dezembro de 2020 às 12:40

  | Coordenadora do FAAP Business Hub e vice-presidente de relações com a juventude e inovação da ACSP


Quando eu comecei a dar palestras sobre empreendedorismo no final dos anos 90, o assunto era muito pouco conhecido e minha experiência era bem limitada. Minha participação no FJE cresceu muito rápido e aos 20 e poucos anos já estava viajando, montando grupos de empreendedores e liderando não só o FJE, mas a FACESP Jovem e diversos grupos de jovens empreendedores pelo Estado. Depois, liderei a maior expansão e crescimento que houve na CONAJE.

Para criar conexão com o público, comecei no início das minhas palestras a contar uma historinha que eu ouvia desde pequena o meu pai contar. Era a história do Leão Na Selva.

Meu pai, sujeito empreendedor, que não teve outra alternativa na vida a não ser se virar, foi e é o meu maior modelo de empreendedorismo. De família migrante de Minas Gerais, mais velho de 4 filhos, devido à enfermidade do meu avô teve que começar a ralar cedo para ajudar a família.

Foi vendedor de livro, foi da "Home Familly", que era uma espécie de Amway das antigas, montou uma escola de aulas particulares e virou corretor de imóveis. Carreira na qual se dedicou por algumas décadas e pôde prover aos filhos a melhor educação e cultura que ele pôde sonhar.

No início dos aos de 1980, a região da Praia Grande, no Litoral Sul Paulista, estava enfrentando um grande boom imobiliário e meu pai foi para lá logo no início da carreira. Vida de corretor não é fácil, trabalha sábado, domingo... logo meu pai comprou um apartamento de 1 dormitório, sala e cozinha na Praia Grande, para a família poder acompanhá-lo na cidade durante seus finais de semana de trabalho.

Como criança, eu adorava ia para a praia todo o final de semana. Mas tinha uma coisa muita chata: por volta do meio-dia, quando a praia estava cheia de gente, a mamãe nos fazia voltar, pois tinha que dar almoço para o meu pai. Os pais dos meus amigos estavam todos na praia e eu não conseguia entender isso. E, para uma criança dos seus 5 ou 6 anos, ele explicava com uma historinha...

Era uma vez um Leão. Esse leão morava no zoológico. Ele vivia com a sua família e mais ninguém. Ele tinha uma jaula grande, ao ar livre. Tinha pedras e um laguinho. Tinha umas árvores e uma espécie de toca ou caverna onde podiam se abrigar do sol e da chuva.

Ele estava sempre esbelto. A comida dele e da família era balanceada, definida por especialistas e sempre servida na hora certa. Se ficasse doente ou se machucasse, logo um veterinário estaria cuidando dele ou de sua família. Eles viviam seguros e protegidos. A vida deles poderia ser perfeita, mas não era. Pois todos os dias que ele acordava, ele só tinha aquela jaula para viver.

Era uma vez um outro Leão. Esse Leão morava na selva. Ele vivia com sua família, com outros leões e com diversos outros animais na Savana. Ele precisava caçar para comer. Ele precisava buscar abrigos para sua família e nem sempre essa era uma tarefa simples; às vezes precisava lutar para defender seu território. Quando se feria, contava apenas com o tempo e a natureza para sobreviver. Não era uma vida fácil, tão pouco segura. Mas ele acordava todo o dia com uma certeza: ele e sua família tinham a selva inteira para explorar.

Eu cresci no modelo da selva. Não é um modelo fácil para se viver e isso causou algumas dificuldades para mim. Os poucos empregos formais que tive, sempre tiverem que vir carregados de autonomia, pois a liberdade é para mim um valor vital.

Meu primeiro casamento, com um rapaz criado no modelo zoológico, foi então um fracasso total. Mas meu caráter empreendedor foi formado já no berçário, o que desenvolvi, ao longo dos anos, dos estudos e das experiências, foram apenas mais habilidades.

Hoje, por conta do lado acadêmico, tenho que por o pé na jaula e confesso que, embora seja desconfortável, consigo me adaptar. Já sou uma leoa cansada, que conheceu e passeou muito na selva. Tenho uma grande habilidade de adaptação.

Mas e quando acontece o contrário? Quando o Leão já velho e cansado é expulso da jaula, sem nem ter aprendido a caçar? Como sobreviver?

Confesso que, como professora de empreendedorismo e mentora de diversos projetos e startups, esse assunto tem sido o mais questionado para mim nos últimos meses.

Infelizmente, a crise que já se estabelecia no nosso país, foi extremamente potencializada com a pandemia, expulsou muitos leões da jaula. Muitas empresas, vendo o horizonte que se desenhava, fizeram cortes drásticos preventivamente.

Muitas, hoje, fazem cortes na carne e tantas outras não sobreviverão. São milhares e milhares de pessoas perdendo os seus empregos, sem ter nenhuma perspectiva de uma rápida recolocação no mercado. Tanto jovens como experientes, com qualificação ou sem qualificação, com pouca ou muita experiência; essa crise não fez distinção.

Tenho acompanhado com tristeza o sofrimento de pessoas que estão sendo obrigadas a passar por verdadeiras transformações. E, acredito que pisar na selva pela primeira vez pode ser assustador. Mas, com um pouquinho de atenção, cuidado e resiliência, quando você conseguir levantar o olhar para o horizonte, vai se apaixonar pelas paisagens e pelas possibilidades.

2020 está acabando e, se Deus quiser, vamos construir um 2021 muito melhor! 

 

IMAGEM: Pixabay







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