Opinião

O inacreditável e o desconcertante


É simplesmente inacreditável que a crise brasileira seja a via de conquista do poder total pelo PT. O desconcertante é o Brasil não se dar conta disso


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 25 de Janeiro de 2016 às 21:37

  | Historiador


Não sabíamos, mas para o Brasil, do ponto de vista econômico, 2015 não havia terminado. A incompreensível insistência do governo federal no desequilíbrio fiscal que culminou com os rebaixamentos da nota de classificação do risco soberano do País pareceu o encerramento lamentável de um ano lastimável.

A tomada de contas só veio, no entanto, com a divulgação, no dia 19 de janeiro de 2016, de uma atualização do World Economic Outlook do FMI  projetando a redução do PIB do Brasil neste ano para 3,5% (era 1% em outubro de 2015), desencadeando reações, algumas esperadas, outras inusitadas, que em seu conjunto revelaram um desastre ainda maior.

Primeiro foi a entrevista do presidente do Banco Central, no mesmo dia 19, véspera da decisão do COPOM para definição da taxa da SELIC, ocasião em que a autoridade declarou que a revisão do PIB para baixo fora “significativa”.

No dia seguinte, o que fora telegrafado pela controvertida entrevista se tornou fato: a manutenção da taxa de juros em 14,25%, uma decisão considerada por eminente opinião do mercado como inconsistente com as pressões inflacionárias e como perda de uma das principais âncoras do dólar, e pior, amplamente interpretada como uma submissão do Banco Central ao governo, quando vazou a notícia da reunião do seu presidente com a presidente da República no dia 19, no momento em que
Lula e o PT já clamavam por uma mudança de rumos na economia.

No dia 21, o Ministro da Economia, Nelson Barbosa, na incômoda posição que esse fatos o colocaram no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, deu uma entrevista que serviu para pouca coisa além de piorar a percepção a respeito do Brasil.

A partir daí os acontecimentos se precipitaram. Dilma decidiu polemizar com o FMI, vindo a público no dia 22 para se dizer “estarrecida” com o documento divulgado dois dias antes.

No mesmo dia, Alejandro Werner, diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, em artigo distribuído à imprensa, deu a dimensão da gravidade da queda da atividade econômica do Brasil e indicou a necessidade de controle dos gastos do governo e do crescimento da dívida pública, bem como de prosseguimento do ajuste fiscal.

Para fechar a semana, no mesmo dia 22, a presidente Dilma Roussef, em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, deslocou a questão da alta do dólar para o cenário internacional, fugiu das explicações sobre o corte de gastos do governo e insistiu no aumento de impostos e na criação da CPMF, acenando com um hipotético plano econômico em que se combinariam a expansão de crédito, o aumento de exportações e a preservação de programas sociais e investimentos.

Porém, da confusão que Dilma habitualmente apronta em suas declarações, dessa vez, mais absurdo do que a defesa da atuação recente do BNDES ou da existência neste caos de condições para redução da inflação, foi o lançamento do balão de ensaio no qual ela aventou o uso das reservas cambiais do País, obviamente para financiar o plano que, fiel ao seu estilo, prepara-se para ditar aos brasileiros.

Violou-se a Lei de Responsabilidade Fiscal, desacreditou-se o Banco Central e agora insinua-se o uso (queima, diga-se) das reservas cambiais. O que está acontecendo? O que está vindo por aí ninguém sabe exatamente, porém, no futuro, não se poderá dizer que o governo não anunciou o que certamente já foi percebido nos altos círculos da economia mundial, agravando a percepção negativa sobre o Brasil.

Seus contornos estão não somente na fala de Dilma, mas também na de Nelson Barbosa que, no mesmo diapasão da presidente, insistiu na causalidade externa, na manutenção da estabilidade macroeconômica e na demanda reprimida para, em seguida, num surpreendente voo conceitual, apontar mudanças estruturais que estão sendo discutidas pela “democracia avançada” que é o Brasil, “no meio de uma transformação tanto tecnológica quanto demográfica e política”, o que requer “um governo muito intenso”, para a superação do que ele chamou de “período de transição”.

Não se sabe se Barbosa falou do mesmo Brasil que não tem condições políticas de discutir mudanças estruturais e tampouco recursos para financia-las em meio ao que é, por certo, uma das maiores crises políticas e econômicas de sua História. 
Muito menos o que ele quis dizer com tantas “transformações”, com “governo muito intenso” e principalmente, com “período de transição”. Que governo seria esse? Em que Congresso se estaria discutindo tudo isso? Transição para quê?

Uma primeira pista pode ser encontrada na “resposta otimista da vontade” com que Dilma, em sua entrevista, pretende enfrentar a queda do PIB do país que governa, fórmula que ela própria atribuiu a quem chamou de “filósofo italiano”, mas que na verdade se trata de Antonio Gramsci (1891-1937), líder do Partido Comunista Italiano e teórico do relativismo histórico para quem previsão e realização são a mesma coisa, devendo ambas convergirem numa vontade coletiva socialmente transformadora.   

Outra pista está no que seja “transição” nos termos de Nikolay Ivanovich Bukharin (1888-1938), autor da obra “A Economia do Período de Transição” (1920) e ideólogo bolchevista que propugnava pela conjunção da ditadura política do proletariado com a ditadura econômica.

Asseverando que o equilíbrio era a chave para o processo social, Bukharin, teorizava que, uma vez ele destruído no sistema produtivo capitalista, somente poderia ser restabelecido pela vontade organizada do novo estado que assumiria o controle da produção, das trocas e da distribuição de bens.

As palavras e os atos que têm desencaminhado a economia do País vêm sendo interpretados como erros de Dilma Roussef. Na verdade, erra quem pensa que Dilma pensa como nós em termos de certo e errado. Ela não está “errando”, mas sim “acertando” com a implementação de sua “nova matriz” econômica.

Se, ao longo de 2015, ela conseguiu estabilizar a frente de luta política no Congresso, com ele em recesso, pode agora acelerar a marcha para o seu verdadeiro objetivo estratégico que é a desconstrução da economia, pela qual imporá a transformação social que persegue.

É simplesmente inacreditável que a crise brasileira seja a via de conquista do poder total pelo PT. O desconcertante é o Brasil não se dar conta disso.