Opinião

O grande desafio do Ocidente


Vai muito além de uma resposta militar e política às ameaças que se lhe apresentam de diversas formas


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 19 de Janeiro de 2016 às 11:13

  | Historiador


A suspensão das sanções contra o Irã resultante do atendimento às exigências internacionais em relação ao seu programa nuclear foi a grande notícia neste final de semana.

Episódio sem dúvida importante no cenário internacional nesta segunda década do século XXI, ele vem à tona num mar de complexidades regionais que podem ser percebidas nas publicações de centros de pesquisa e de renomadas personalidades da política externa dos Estados Unidos.

Um exemplo marcante dessas publicações é o recente livro do ex-Secretário de Estado Henry Kissinger, provavelmente o melhor que ele já escreveu (Ordem Mundial, 2015), no qual ele propugna uma ordem mundial baseada no equilíbrio entre legitimidade e poder que leve em conta as ideias de ordem que têm tido maior peso na evolução da Era Moderna, concepções originárias de diferentes regiões do mundo.

A obra situa a proliferação nuclear iraniana no capítulo mais amplo das relações entre os Estados Unidos e o Irã, do que se conclui que a anuência iraniana às exigências internacionais pode significar muitas coisas, desde o desejo de distensão com o Ocidente em um momento de escalada do jihadismo sunita nas suas fronteiras até a aquisição da condição de potência nuclear virtual, capaz de construir armas atômicas antes que qualquer rival ou vizinho o faça. Ao longo desse espectro de especulação, Kissinger faz várias indagações.     

Para colocar essas indagações ele apresenta um argumento aparentemente simples, que é aplicável a inúmeras situações da cena mundial, não só políticas, características dos atuais estados-nação a que ele originalmente se refere, mas também culturais, com alcance ideológico e civilizacional: “para as nações, a história é o equivalente ao caráter dos seres humanos”.

Sim, há se concordar que a História é o caráter das nações, ou quiçá das sociedades e civilizações. Não há como uma nação contribuir, sem História,  com ideias de ordem para uma nova ordem internacional. E é justamente por causa disso que o sistema internacional está se desestabilizando, devido à perda de sentido da História pela nação mais rica, poderosa e desenvolvida do sistema internacional.

Nos Estados Unidos, enquanto proliferam em livros e dossiês de centros de pesquisa as referências históricas sobre nações e civilizações não ocidentais, escasseia na sua sociedade a consciência sobre suas origens e nas suas universidades o conhecimento sobre a civilização que compartilhamos na Europa e nas Américas, a que chamamos de Ocidente.

É bom recordar que, ao contrário do que se tem comumente, o Ocidente não é um produto ideológico da Guerra Fria. Em um período de aproximadamente mil anos, estruturaram-se numa parte do mundo ideias, bem como formas de pensamento e de vida fundamentais para a civilização a que pertencemos.

Nesse período, o tempo de um espaço a que chamamos de Idade Média, consolidou-se a cristandade ocidental que daria origem à Europa, a qual, a partir do século XVI, se estenderia às Américas.

Portanto, cristandade e Europa são etapas de um processo civilizatório que culminou na configuração cultural, social e política desta região do mundo chamada Ocidente, cujo grande desafio nesse momento histórico vai muito além de uma resposta militar e política às ameaças que se lhe apresentam de diversas formas.

O seu grande desafio é assumir perante si mesmo o legado histórico que trouxe à humanidade como civilização que teve sucesso em consolidar a liberdade e o conhecimento como formas de vida.