Opinião

O facciosismo da extrema imprensa


Enquanto o iluminismo encontra a resistência barroquista do jornalismo profissional no Brasil, as redes sociais correm por fora e ganham força no debate político supra-partidário


  Por Jorge Maranhão 02 de Outubro de 2019 às 16:52

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de "Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas"


Foi triste a notícia de que o presidente não vai falar com a imprensa até que ela se retrate sobre a cobertura (ou encobertura?) de seu discurso na ONU. Como disse Alexandre Garcia, um dos ex-jornalistas da grande imprensa que passou para o lado das redes sociais: “quem não gostou do discurso foram os eleitores do Haddad.”

Ainda no desfile de 7 de setembro, o presidente da república recebeu no palácio dois controladores de redes de televisão brasileiras com a exclusão do representante do maior grupo de mídia nacional. Por decisão de jornalistas esquerdistas que dividem o poder do Grupo Globo com seus legítimos acionistas, a família Marinho, o imaginário
coletivo brasileiro passou a ser rachado entre os que apoiam e os que detratam o novo governo conservador depois de décadas de hegemonia socialista e socialdemocrata.

Como já disse o ministro da economia Paulo Guedes sobre a democracia e a alternância de poder: “se já elegemos presidente que assaltava bancos, por que essa intolerância com este que batia continência na caserna”?

A maioria dos profissionais da imprensa brasileira tem desservido o país com seu parcialismo. O que é triste sobretudo para mim, que passei a vida apostando na imparcialidade de nosso jornalismo como meio de construção da cidadania no Brasil. Ainda mais a Rede Globo que poderia ter seguido claramente o exemplo da Fox Corporation americana, como era da convicção de seu fundador, na missão de resgatar os valores cívicos desde a campanha do Crime doesn’t pay dos anos 40.

É triste ver o Iluminismo bater, enfim, à porta do Brasil e constatar a resistência barroquista da maioria dos jornalistas da imprensa profissional. Sobretudo quando caem no engodo de que a socialdemocracia possa ser a
mediana entre esquerda e direita, entre progressistas e conservadores, o que não ocorre no debate político franco e manifesto da maioria dos países civilizados.

É lamentável nossa incapacidade de nos unirmos como uma pequena elite esclarecida em torno de uma agenda pelo país supra-partidária. E ver os emergentes youtubers de direita achincalhando a “extrema imprensa”, em resposta ao achincalhe do governo pelo que chamam de Globolixo, sejam seguidores ou ex-seguidores de Olavo de Carvalho, declarados ou não, e até mesmo seus opositores.

Será que isto não tem nada a ver com a significativa queda da audiência verificada sobretudo pelo telejornalismo global nos últimos anos, embora a teledramaturgia ainda consiga minorar a trancos e barrancos esta crise de credibilidade? O problema é que, se a teledramaturgia diverte e fatura, é o telejornalismo que faz a reputação de credibilidade de uma empresa jornalística.

Afinal, hoje, com mais de 36 milhões de seguidores nas redes sociais, apenas os 60 maiores canais de informação independentes, feitos por cidadãos comentaristas independentes da cena política nacional, 15 dos quais egressos do próprio jornalismo profissional, já superam o total da audiência nacional do telejornalismo da Rede Globo.

Será que nem diante de uma fatal perda de marketshare no segmento publicitário, a maior fonte de sua riqueza, seguida hoje de demissões de elenco e amanhã dos resultados dos próprios balanços, os acionistas da família Marinho não vão intervir junto a seus jornalistas para que não levem toda a rede à falência?

Será que não enxergam que seus interesses privados não poderiam coincidir com o interesse público nacional de ver balanceado os comentaristas esquerdistas, opositores ferrenhos do novo governo, com outros mais conservadores e adeptos de um crédito para a experiência de, enfim, o poder de direita no país mostrar a que veio?

Insistem estes jornalistas enviesados numa tese absurda e tendenciosa de que os conservadores são representantes do obscurantismo sobretudo nas agendas cívica e de costumes. Quando esta tese é em si a prova do próprio obscurantismo, uma vez que ignora o iluminismo como necessário embate entre as culturas progressista e conservadora desde sempre na tradição ocidental judaico-greco-cristã.

Não há iluminismo com hegemonia de uma corrente doutrinária apenas. Não há iluminismo com o parti pris político-ideológico, quando a grande imprensa sonega o debate público verdadeiramente iluminista entre progressistas e conservadores.

Quando a maioria dos jornalistas repulsa o professor Olavo de Carvalho, mais pela forma argumentativa de suas aparições nas redes sociais e não pelo conteúdo argumentativo de seus livros. Puro preconceito com a onda conservadora que varre o planeta depois dos retumbantes fracassos progressistas e esquerdistas mundiais.

O obscurantismo real é combater a liderança de um professor de filosofia que, diante do fracasso de universidades públicas tomadas pela doença infantil do esquerdismo, resgatou sozinho para o estudo e a busca do conhecimento centenas de milhares de jovens conservadores, os chamados neocons, que saíram do armário contra uma hegemonia de jornalistas socialistas ou socialdemocratas desde as grandes manifestações de 2013.

É obscurantismo da extrema imprensa não convocar comentaristas conservadores para o debate da cena política nacional por mera vaidade e medo de ver suas quimeras coletivistas cair por terra. Sobretudo quando acham arrogantemente que são eles próprios a mediana entre esquerda e direita, entre progressistas e conservadores,
com o falseamento do que seja o papel da socialdemocracia, como ocorre, aliás, no debate político franco e manifesto da maioria dos países civilizados.

Quando fazem a crítica rasteira da persona do professor nas redes sociais, no excesso de palavrões, na agressividade com que esgrime seus argumentos e demonstram não ter lido sequer os livros bestsellers do filósofo ou mesmo contestado seus argumentos no campo do texto escrito que, aliás, não traz sequer uma palavra de baixo calão. 
Não tendo competência para criticar o conteúdo, criticam a forma numa demonstração cabal de que são barroquistas e não iluministas.

O último comentário do professor, aliás, que você pode ver aqui https://www.avozdocidadao.com.br/imprensa-por-que-a-maioria-dos-jornalistas-repulsa-o-professor-olavo-de-carvalho/, e trata exatamente de uma aula sobre o jornalismo que não se pratica no Brasil, em qualquer país verdadeiramente iluminista, seria obrigatoriamente pautado e respondido pelos próprios jornalistas, quando o seu silêncio, ao contrário, passa a ser uma eloquente manifestação de facciosismo.

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