Opinião

O Brasil que podia ser


A imagem daquilo que poderíamos construir contrasta com uma realidade tristonha, com corrupção e inanição política


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 05 de Janeiro de 2016 às 10:09

  | Historiador



No prefácio à sua autobiografia (A Lanterna na Popa, 1994), Roberto Campos lamentou não ter tido “profundidade, inteligência e poder para erguer um farol que lançasse um facho de luz para as futuras gerações”.

Felizmente, isso não aconteceu, pois, do testemunho de uma longa e profícua vida pública, ele deixou o pensamento que ainda brilha como referência de um futuro para o Brasil.

E quando experimentou a decepção com sua geração por ter falhado em fazer do futuro o presente, ao concluir o generoso prefácio com que me honrou, deixou-nos uma reflexão salvadora: “é necessário que meditemos no que podia ser o Brasil”.  

O Brasil que aí está não é, de forma alguma, o que desejamos. A menção ao “Brasil que podia ser” serve para lembrar que já foi possível ter um futuro para o País, hoje cada vez mais incerto para gerações de brasileiros, independentemente de suas origens ou condição social.

Roberto Campos, como um dos grandes pensadores brasileiros, teve a coragem intelectual de mostrar a nova visão de que necessitava o Brasil, a da realização do capitalismo democrático. É a perda dessa visão, em pouco mais de vinte anos, que dá a medida das presentes dificuldades do Brasil, tanto na dimensão político-econômica, quanto na intelectual.

Como disse Tony Judt, “o século XX é o século dos intelectuais, com todas as traições, acomodações e compromissos que os acompanham. O problema é que hoje vivemos em uma época em que ilusões, desilusões e ódios ocupam a posição de destaque. Portanto, é preciso um esforço consciente tanto para identificar como para salvar o núcleo do que foi bom na vida intelectual do século XX” (Pensando o século XX, 2014).

Isso se aplica bem ao Brasil de hoje, onde sobram decepções e faltam inteligências do calibre de Roberto Campos, um dos maiores intelectuais do País, condição à qual aduziu a de homem de ação, responsabilidade e sucesso.

A não realização do capitalismo democrático no Brasil agravou enormemente as dificuldades quase estruturais com que já nos defrontávamos ao longo do século XX. Com insuficiente capital financeiro e humano, instituições políticas imaturas e uma extensão continental esburacada por formidáveis bolsões de pobreza, o arremedo de socialdemocracia europeia no Brasil acabou por abrir caminho ao pior populismo.

E, como não podia deixar de acontecer, enquanto se esgarçava o tecido social, à desigualdade se somou a violência, às quais se juntou a corrupção. Outros problemas, funcionais, tornaram-se falências mesmo:  como a educação, a saúde e a infraestrutura. E assim chegamos ao Brasil da segunda década do século XXI, um país favelizado. Mas podia não ser assim.

O Brasil que podia ser democratizou as oportunidades de acesso à habitação, à terra, à educação e ao capital. Para o País, tão importante quanto essa democratização de oportunidades foi o novo trabalhismo, do qual os sindicatos participaram ativamente, estimulando o incremento real de produtividade para reclamar a compensação adequada nos salários e nos investimentos sociais.

No início do século XXI, esses dois aspectos, combinados ao aumento da participação da indústria no Produto Nacional e à mudança do seu perfil produziram o “milagre  brasileiro”, a maior redução de desigualdade da História do Brasil.

O Brasil que podia ser aplicou o previsto no artigo 178 do Decreto-Lei 200, o qual previa a liquidação ou incorporação a outras entidades das autarquias, empresas ou sociedades em que a União detinha a maioria ou totalidade de capital votante e que acusaram a ocorrência de prejuízo continuado, assegurando-se os direitos dos acionistas minoritários.

Além de eliminar da paisagem brasileira os covis de sinecuras, essas medidas concederam ao governo flexibilidade para fazer frente aos desafios da Revolução Tecnológica e superar as crises econômicas.

O Brasil que podia ser evitou as megalópoles, abrandando a migração do campo para as cidades mediante a melhoria das condições rurais, além de investir maciçamente na infraestrutura e no transporte público que viabilizaram os cinturões urbanos e as cidades-polo.

Tudo isso, junto à aplicação sistemática de uma criteriosa legislação de ocupação do solo, permitiu que, em meados dos anos 90 do século XX, o País houvesse esvaziado as principais favelas dos grandes centros urbanos e eliminado as tragédias ambientais que haviam custado milhares de vidas. No início do novo milênio, arquitetos brasileiros tornaram-se famosos mundialmente por suas soluções urbanísticas.

O Brasil que podia ser fez do Rio de Janeiro, debruçada sobre duas grandes baías, a grande cidade-entreposto do Atlântico Sul, antes de Hong Kong, de Cingapura ou de Kay Hsiung, em Taiwan, no Mar do Sul da China, articulando o grande centro econômico de São Paulo ao mundo e com isso dando enorme dinamismo comercial ao País.

Em 2002, foi inaugurado o primeiro trecho do trem de alta velocidade (TGV) entre Rio e São Paulo, totalmente custeado por um consórcio de empresas nacionais e estrangeiras para atender à grande demanda gerada pelos crescentes negócios de importações e exportações nas duas praças.

O Brasil que podia ser varreu da Amazônia brasileira as áreas de influência das FARC e reduziu drasticamente o tráfico de armas e drogas que das fronteiras alimentava a criminalidade urbana. Forças especiais brasileiras, a pedido de governos amigos, auxiliaram ou apoiaram as forças militares e policiais de países vizinhos no combate à narco-guerrilha.

O País que, desde 1999, patrocinava, junto com os EUA, a Iniciativa Colômbia teve seu Chanceler premiado com o Prêmio Nobel da Paz em 2005, pelos seus esforços de mediação que puseram fim ao conflito.

Com uma autossustentada indústria de defesa, uma esquadra moderna dispondo já de dois submarinos nucleares e uma força aérea equipada com aviões nacionais de última geração, o País assumiu graves responsabilidades de segurança no cenário internacional e, em 2006, juntamente com a Alemanha e o Japão, ingressou no Conselho de Segurança da ONU.

O Brasil que podia ser se notabilizou pelo protagonismo de juízes, procuradores e policiais que empreenderam uma verdadeira cruzada contra o crime organizado de norte a sul do País. Livre da corrupção endêmica, graças à adoção de uma rigorosa ética de gestão empresarial e de draconianas medidas contra a corrupção propostas pelo Ministério Público que contaram com o amplo apoio da população, o País assumiu a guerra sem tréguas contra a violência.

Nenhum bandido esteve mais fora do alcance da Lei, em qualquer parte do território nacional e na maior parte do mundo, por conta da credibilidade da justiça e polícia brasileiras e da reciprocidade garantida pelo respeito aos acordos internacionais de extradição de criminosos condenados. Na primeira década do século XXI, a figura do policial, juntamente com a do professor, passou a ser das mais respeitadas no País.

O Brasil que podia ser se colocou de acordo com o que ele representa de melhor para sua população e para o mundo. Aflorou em sua sociedade o sentimento generalizado de autonomia: a fruição do direito de participação na vida política pela representação; de prosperidade à custa do trabalho; e de realização pessoal pela dignidade.

Então, depois de ter empreendido tudo isso, de ter alcançado índices notáveis de desenvolvimento, prosperidade, prestígio, segurança e justiça, o Brasil que podia ser encantou o mundo, mostrando o país em que se transformara e jogando o futebol que jamais esquecera.

Ganhou a Copa do Mundo realizada em 2014 no Brasil.