Opinião

O Brasil acabou (3)


A dívida interna é impagável. Do contrário não teria se multiplicado por 42 em apenas 21 anos. Em 2020 será igual ou maior que o PIB. Mais impagável do que nunca


  Por Samir Keedi 09 de Outubro de 2015 às 09:00

  | Economista, professor e especialista em comércio exterior.


Neste último artigo da série, a pedido de amigos e leitores volto ao tema para explicar, didática e detalhadamente, por que a dívida interna é o maior problema econômico do país e os efeitos que provoca na economia brasileira.

A dívida interna do governo, de R$ 89 bilhões em 1994, saltou para R$ 1,1 trilhão ao final de 2002. Oito anos depois já atingira R$ 2,4 trilhões. Em 2014, 3,4 trilhões --pouco acima dos 3,3 trilhões que previ em artigo publicado em 2011. A previsão é que chegará a cerca de R$ 3,8 trilhões ao final deste ano. Terá representado, portanto, de 65 a 67% do PIB.

É, como se observa, uma dívida impagável –pois do contrário não teria se multiplicado por 42 em apenas 21 anos. Em 2020 será igual ou maior que o PIB. Mais impagável do que nunca.

Tal crescimento sugere que o governo e o país estão sem economistas há muito tempo. O Banco Central, completamente isolado do mundo – como o Brasil – vem mantendo uma taxa de juros numa indecente estratosfera de, atualmente, 14,25%. Significa pagar entre R$ 400 e 500 bilhões de juros sobre a dívida.

A economia que se faz para os juros, o chamado superávit primário, será negativo em 2015. E, nos últimos anos, tem se situado em meros 1 a 2% do PIB. Neste ano será negativo. Para que a dívida não aumente nem um centavo sequer, o superávit primário precisaria equivaler a 8% do PIB --o que jamais ocorreu ou ocorrerá.

O que precisamos fazer é seguir o mundo desenvolvido e posicionar a taxa de juros em 0% ou algo próximo disso. Com qualquer pequeno superávit seria possível começar a amortizar a dívida. Mas isso jamais será feito pela Inteligência política e governamental brasileira. Que enxerga a economia de forma vesga, e quer recriar a roda.

Para isso usa o falacioso argumento de que juro baixo faz explodir a inflação. Mentira que só os leigos aceitam. Por que o Japão, com juro de 0% há 10 anos, tem deflação? Por que ocorre o mesmo na Europa? Por que os Estados Unidos, com juro 0% há seis anos, tem inflação de 0,3%?

E todos querem provocar ao menos 2% de inflação para mover a economia, que seria uma política acertada. Portanto, não é com taxa de juros alta que se controla a inflação. Ao contrário, quanto maior a taxa de juros mais caro o custo do dinheiro para investir, portanto, mais custo e mais inflação.

Com a manutenção dessa taxa de juros, não há como o empresário investir. Crescimento se faz com investimento, e não com mera política de consumo, como ocorreu nos últimos anos. Mais consumo sem aumento da produção correspondente só catapulta a inflação a níveis indecentes, a exemplo da atual taxa de 10% ao ano.

Se o empresário não investe, não há como aumentar a produção. Sem isso, não há como baixar os preços. Redução do custo de produção se faz, entre outras coisas, com aumento da produção e economia de escala. Quanto maior a produção, menor será o custo de cada unidade, seja qual for o produto.

Os custos fixos de uma empresa estão lá. Produza-se ou não. Os custos variáveis é que mudam e acrescem o custo de produção. Portanto, cada unidade a mais produzida, reduz o preço unitário do todo por meio da diluição do custo fixo. Isso sem contar que quanto maior a produção, com maiores volumes de matéria-prima, menor será o custo unitário dela e de toda a cadeia produtiva.

Assim, se continuarmos com os juros em Marte, nem a iniciativa privada, nem o governo investirá. O investimento atual da economia está situado, desde 1995, de 17 a 18%, na média anual. Insuficiente para crescer e para repor. É necessário, no mínimo, 20% para que tudo permaneça igual. E 25% para que o país cresça cerca de 5% ao ano.

Assim, sem investimento, não se produz o suficiente. E, com pequena produção, o custo produtivo é elevado. Para ter uma ideia: nosso custo de produção é 23% superior ao dos Estados Unidos.

Sem que se aumente produção e consumo de forma econômica e real, em vez de artificial, não haverá crescimento nem arrecadação de tributos da maneira correta. Enquanto não reduzirmos a dívida, o que nunca será feito nas condições atuais, não haverá como crescer de forma sustentada.

O que vai acabar ocorrendo é que até 2020 chegaremos a tal ponto que nem mesmo a população terá mais renda disponível para consumir, nem o governo terá recursos para pagar os juros da dívida –a situação em que nos encontramos.

Por meio de aumento impostos será impossível. A única maneira de se resolver esse problema será com taxa juros de “0%”, para que o superávit primário pague os juros e um pouco do principal. A alternativa será o calote total, amplo e irrestrito. Será o “devo, não nego, não pago”.

Se nada mudar até 2020 não haverá um centavo para aposentadorias, bolsa-esmola, etc. etc. etc. Ou seja, provavelmente passaremos a invejar o Haiti e alguns países africanos, etc. Em 2020, a África será aqui.

 






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