Opinião

O BC e o conto da carochinha


Mesmo discretamente, a ata do Copom atribui a crise ao aumento do petróleo e à desaceleração chinesa


  Por João Batista Natali 28 de Janeiro de 2016 às 14:18

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O Banco Central foi acusado na quarta-feira (20/01) da semana passada de abandonar o comportamento técnico e se alinhar aos desejos políticos do Planalto ao manter a taxa básica de juros em 14,25%, apesar da persistência da inflação.

A atitude foi comprovada nesta quinta (18/01), com a publicação da ata em que, na 196ª reunião do Copom (Conselho de Política Monetária), os oito conselheiros, entre eles o presidente do BC, Alexandre Tombini, tomaram aquela decisão por seis votos a dois.

Embora de maneira discreta, e apenas no item 23 do documento, o BC diz que a recessão (“ritmo de expansão da atividade doméstica neste ano, inferior ao previsto anteriormente”) é influenciada pelas investigações da Lava Jato (“eventos não econômicos”, um outro eufemismo do banco).

A tese é favorável ao Partido dos Trabalhadores e a seus diagnósticos para uso interno do governo. De fato, perdem espaço o desequilíbrio fiscal e o excesso de gastos em 2014, para a reeleição de Dilma Rousseff, fatores apontados por unanimidade por economistas, como o decano Delfim Netto, não preocupados em apenas defender o governo.

A bem da verdade, a questão fiscal não está ausente do longo documento de 4.302 palavras. Mas ela surge bem no finalzinho, no item 32, e mesmo assim no quadro de “incertezas associadas ao balanço de riscos”.

A ata do Copom também cita a queda do petróleo no mercado internacional e a desaceleração da economia chinesa. No texto eufêmico, não é bem desaceleração. É “perda de dinamismo”.

Existem aí, no entanto, dois problemas. Em primeiro lugar, a cotação do petróleo começou a cair em junho de 2014 e não é, portanto, um indicativo tão recente. A seguir, a China desacelera desde 2012, e o governo não adotou medidas para compensar o fechamento parcial das torneiras de exportação das commodities.

O que está em jogo, portanto, é a atribuição da recessão a fatores externos e não à notória imperícia do governo em lidar com soluções que poderiam manter a saúde da economia.

Embora envolto numa linguagem técnica que é mais característica a sua função de defesa da moeda, o Banco Central passou a atuar como um apêndice político para tirar a culpa das costas do governo, sobretudo depois que, em dezembro último, a economia deixou de ser dirigida pelo técnico Joaquim Levy e foi parar nas mãos de um militante camuflado, o ministro da Fazenda Nelson Barbosa.

Essa visão se enquadra na retórica marcada pela falta de sinceridade do Planalto, que se tornou um obstáculo a mais para qualquer diálogo com a oposição, em busca de hipotéticas soluções consensuais para a crise. E isso num cenário em que o impeachment se torna bem pouco provável.

Ainda na Casa Civil, no ano passado, Aloizio Mercadante disse que, em 2014, o governo, empenhado na eleição presidencial, foi surpreendido com o fim inesperado dos resultados das “medidas anticíclicas”, que o Planalto vinha adotando desde 2007.

Ora, a semente da recessão já germinava com força, em 2014, desde o segundo trimestre. O governo já sabia disso e procurou colocar o problema debaixo do tapete, no mesmo roteiro que o levaria a fazer promessas eleitorais inviáveis para praticar o chamado estelionato eleitoral.

Bem mais recentemente, a presidente Dilma Rousseff começou com perfeição uma frase. “Sei que nós erramos”, disse ela. Mas no encadeamento afirmou que o erro consistiu em não haver detectado a tempo a importância da desaceleração da economia chinesa.

Mais uma vez, o conto da carochinha procura nos convencer de que os problemas econômicos do Brasil chegam de fora. O que, por tabela, pressupõe a inocência dos agentes políticos internos na fabricação da portentosa crise que vivemos.

A verdade é que em Brasília, dentro e fora do establishment petista, não há personagens inocentes. A diferença entre a oposição, de um lado, e do outro lado o Planalto - e agora também o Banco Central - está no fato de que apenas um deles exerce o poder. E é pelos erros desse exercício deve ser responsabilizado.