Opinião

O Banco Central e o dólar


Manter as reservas não impediu que o câmbio desvalorizasse de forma acentuada esse ano. Caso não haja indícios de que se está no caminho certo do ajuste, o uso das reservas se tornará uma necessidade


  Por Roberto Fendt 25 de Setembro de 2015 às 19:31

  | Economista.


Pressionado pela alta continuada do dólar, o Banco Central decidiu atuar para pôr um freio na escalada da moeda. Em discurso, o presidente do banco avisou que poderá utilizar as reservas cambiais no futuro para conter o câmbio, advertindo também que os juros se manterão estáveis daqui para a frente. A forte queda na taxa cambial parece indicar que o aviso surtiu efeito. A questão é saber se e por quanto tempo o Banco Central poderá administrar o câmbio.

Quem souber com precisão a resposta a essa indagação poderá ficar rico. Mas se não podemos antecipar o que vai ocorrer nos mercados no futuro próximo, menos podemos prever qual o curso da taxa de câmbio à frente. O que podemos fazer é examinar com atenção outros momentos em que foi forte a pressão pela valorização da moeda estrangeira e procurar tirar dessa experiência algum ensinamento para o caso atual.

A experiência, tanto brasileira como de outros países, não assegura que ameaçar empregar as reservas cambiais tenha um efeito significativo no mercado. O dólar valorizou-se contra o real em torno de 60% nos últimos 12 meses, quando a posição de reservas do país era essencialmente a mesma de que se desfruta hoje.

Diferentemente de outros episódios do passado, o regime cambial brasileiro é de taxa flutuante. Isso significa simplesmente que sempre que a demanda por divisas excede a oferta no mercado, o câmbio desvaloriza, mantendo-se as reservas inalteradas. Enquanto o Banco Central não interferir no mercado cambial fica afastada a possibilidade de uma crise externa.

A questão não é tão simples porque o Banco Central tem outros objetivos, além de preocupar-se com a taxa de câmbio. Sua principal missão é manter a inflação sob controle, aceitando-se hoje que, em base anual, ela se situe entre 2,5 e 6,5 pontos percentuais.

O rápido aumento da taxa de câmbio eventualmente desaguará em mais inflação. Quanto, é difícil dizer. Um grande número de bens é afetado pela desvalorização, tanto bens de consumo, como de investimento e partes e peças de outros bens.

Se a economia não estivesse em recessão essa passagem do câmbio para os preços internos já estaria sendo sentida de forma generalizada. Ainda que nem toda a desvalorização se transforme em alta dos preços internos, alguma transformação ocorrerá. É possível que o BC tenha passado a se preocupar mais com a inflação agora que anteriormente.

Havia uma boa razão para não gastar as reservas cambiais. O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, deve aumentar a sua taxa básica de juros ainda esse ano. A economia norte-americana já dá provas de aquecimento; do aquecimento para a volta da inflação é questão apenas de tempo.

A manutenção das reservas é uma rede de segurança diante de dois desafios que a economia brasileira terá pela frente: o primeiro, já apontado, é a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos. Esse aumento tornará as aplicações lá mais atrativas, reduzindo os fluxos de recursos para os países emergentes em geral e para o Brasil, em particular.

O segundo desafio é dar início ao ajuste fiscal. Na raiz mesmo da volatilidade do câmbio está o déficit das contas públicas. Esse persistente déficit produz um aumento da dívida pública para seu financiamento, piorando indicadores como a relação dívida/PIB.

A dificuldade do Executivo de apresentar um plano crível de ajuste só faz piorar a situação. A essa enorme insegurança com relação à trajetória futura da economia adiciona-se o agravamento da crise política.

Tem razão o senhor presidente do Banco Central ao afirmar que as reservas são como um seguro contra a excessiva volatilidade do câmbio. Mantê-las tem elevado custo, já que a taxa que remunera a sua aplicação é muito inferior ao custo de adquiri-las. De fato, as reservas foram adquiridas com a emissão de dívida pública, que remunera hoje os seus tomadores a uma taxa de 14,25% ao ano.

Simplesmente mantê-las não impediu que o câmbio desvalorizasse de forma acentuada esse ano. Caso não haja pelo menos indícios de que se está no caminho certo do ajuste o uso das reservas se tornará uma necessidade.