Opinião

O ano de 1 milhão de refugiados na Europa


Multidão vinda da Síria e do Afeganistão chega às fronteiras da União Europeia, que não tem um plano para recebe-la


  Por João Batista Natali 22 de Dezembro de 2015 às 13:19

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O ano de 2015 não foi o dos atentados de 13 de novembro em Paris, o da emergência da candidatura maluca de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, ou do refluxo do populismo na Argentina e na Venezuela. Foi o ano dos refugiados, sobretudo os sírios e afegãos, que chegaram à Europa para salvar a própria pele.

Aquilo que a agência das Nações Unidas para refugiados (Acnur) qualificou de “a maior crise humanitária no pós-Guerra” ultrapassou nesta terça-feira (22/12) a cifra simbólica de um milhão. O número é da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que não é uma agência da ONU, mas que, com 162 países, tem o mesmo peso e seriedade.

Esta terça foi rotineira para essa massa semovente de infelizes. Um barco com sírios naufragou no Mar Egeu, no litoral da Turquia, matando 11 ocupantes, entre eles três crianças. Morreram no mar este ano ao menos 2.880 pessoas. O garotinho Aylan Kurdi, de quatro anos, foi no início de setembro a vítima mais comovente.

O fato é que o número de refugiados quase duplicou em relação a 2014. Há para tanto explicações políticas. O grupo militar e terrorista Estado Islâmico assumiu um controle territorial maior na Síria e no Iraque, enquanto o Talibã – também radical sunita – se expande no Afeganistão.

Outro fator de estímulo a esse movimento demográfico às portas da Europa está no esgotamento dos campos de refugiados, sobretudo no Líbano e na Turquia, acessíveis aos sírios por via terrestre.

E ainda, para quem buscava chegar à Espanha, Grécia, Itália ou Turquia -  como escala para a Eslovênia ou Hungria, para se fixar na Alemanha – cresceu em número os “atravessadores” que extorquem as economias de famílias modestas para coloca-las em barcos inóspitos e pouco apropriados.

Entre os países que hospedam essa multidão de estrangeiros não há uma política conjunta, que vem sendo inutilmente negociada entre os 28 membros da União Europeia.

A Alemanha, que pode ter acolhido até agora 700 mil refugiados, é um exemplo à parte. A chanceler Angela Merkel deve ser aplaudida por sua reação humanitária. Mas ela também vê nos estrangeiros uma maneira de repor parte da população interna tem diminuído em razão do número reduzido de crianças por casal.

É então, ao mesmo tempo, um raciocínio econômico. Se em meio século os alemães estiverem demograficamente enfraquecidos, eles perderão espaço para os países asiáticos, que seguem o modelo chinês em que a população se tornou um grande ativo para a produtividade e para a formação de um sólido mercado interno.

O Reino Unido fechou as fronteiras e disse que acolheria apenas 20 mil. A Suécia é historicamente um porto de acolhimento, mas, com uma população pequena, ela rapidamente esgotou sua capacidade. O mesmo vale para a Grécia, para a Hungria ou para a Bélgica ou Holanda.

Em julho, a União Europeia se comprometeu junto à ONU a reinstalar 22 mil refugiados. Mas só 600 se beneficiaram. Um outro plano, negociado em outubro, citava 160 mil estrangeiros, mas só 184 haviam sido beneficiados até sexta-feira (11/12).

Os números só não são ridículos quando se referem à ajuda financeira da EU a países como a Turquia ou a Grécia. Mesmo assim, nada de soluções milagrosas.

Há projeções alarmistas segundo as quais até 2017 a Europa precisará alojar em torno de 3 milhões de refugiados. Esse roteiro seria desmentido apenas com a volta da paz à Síria – onde a ONU trabalha com um plano de 18 meses para o fim da Guerra Civil iniciada em 2011 – e ao Iraque.

Mas são justamente esses os países em que o Estado Islâmico tem base territorial. A organização terrorista muçulmana não é obviamente parte das negociações.

E existe ainda o Afeganistão, que os Estados Unidos procuram inutilmente “pacificar” desde 2002. Há os países em que o Estado entrou em colapso, como a Líbia. Ou, então, os africanos como a Nigéria, com regiões controladas pelo grupo islâmico Boko Haran, que, por sua vez, produz violência e refugiados.

Em resumo, os refugiados deram o tom de um processo incontrolável e confuso de deslocamento de populações. É possível que 2016 também seja o ano dos refugiados. E que o mesmo aconteça com o ano seguinte.