Opinião

Nós, os privilegiados


O futebol brasileiro está decadente. Mas ele é também uma metáfora de todo o clima político em que o Brasil está mergulhado


  Por Paulo Saab 15 de Julho de 2015 às 15:27

  | Jornalista, Bacharel em Direito, professor universitário e escritor.


Como eu, certamente, há outros milhares, quem sabe milhões, de brasileiros que podem se considerar privilegiados, ao menos no que diz respeito a ter visto o apogeu do futebol brasileiro.

A reflexão é interessante, num momento da vida nacional, onde nosso futebol se encontra no que se poderia chamar de fundo do poço, embora alguns ainda insistam em achar que ainda sejamos os melhores do mundo.

Já fomos. Ainda somos os únicos pentacampeões, mas isso será igualado e superado, em breve, por Alemanha ou Itália. Ou ambos.

Somos esses brasileiros, privilegiados por termos assistido, ou ouvido, as cinco Copas do Mundo onde o futebol brasileiro foi campeão.

Eu sou mais ainda porque meu time do coração é o único do nosso país que foi três vezes campeão mundial interclubes. E será ainda por bom tempo, com a mediocridade atual do famoso esporte bretão em nosso solo.

À exceção da Copa de 50, onde perdemos a final e que não pude presenciar porque estava chegando ao mundo, todas as demais finais que o Brasil participou, vencemos.

Sou um é quente. Nas outras copas que fomos desclassificados, em nenhuma delas foi no jogo decisivo. Então, no pós-50, em todas as finais que participou, o Brasil levou.

Até o vexame do ano passado, na Copa do Brasil de 14, poupou os brasileiros de sofrimento. Eliminados na fase anterior à final, de forma humilhante, pelos 7 a 1 da Alemanha, não participamos da festa decisiva e, ainda, diante da vergonha escandalosa dos 7 a 1, o que poderia ser sofrimento virou piada.

Nós mesmos nos gozamos, como se aquilo tudo não tivesse passado de um pesadelo já superado.

Não foi. Acabamos de ser eliminados também da Copa América. E se não jogarmos muito, nós, os brasileiros, ficaremos pela primeira vez na história da humanidade fora de uma Copa do Mundo.

Não iremos à Rússia em 18 se o nosso futebol não morrer e renascer novamente. Até o futebol da Venezuela nos assusta hoje em dia. Viramos chacota no mundo do futebol.

E tem tanta gente que ainda se acha,

Ouvi no rádio um jogador do time da Marginal Tietê dizendo que os jogadores de hoje são tão bons quanto foram as gerações que conquistaram cinco títulos mundiais. Ele e muitos acreditam nisso, para tentar valorizar seu passe. Ou por estar fora da realidade.

O futebol do Brasil é reflexo hoje do que se tornou o próprio país.

Apequenou-se em tudo. Mediocrizou-se em valores, em referências, e dormiu em cima de seu próprio esplendor, acordando atrasado para um mundo que ser renovou, avançou e modernizou.

Aqui ainda se cultua Cuba, o socialismo e a pobreza são modo de vida de quem diz combate-la.

Não é saudosismo. É realidade.

Por isso digo que sou de uma geração privilegiada, porque nunca mais o futebol canarinho será como foi. Primeiro pelo avanço dos demais, enquanto regredimos. E segundo porque a mentalidade dos jogadores de hoje, adequada à sanha o enriquecimento e da fama, pouco se lixa para o jogo, a maestria em si.

Com raras exceções. E falta talento também.

De outro lado, assisto também agora, como todos os brasileiros, à destruição do pouco que já conquistamos, por um estimulo de governo e poder que aposta tudo contra o país e recolhe a seu favor. Os resultados deveriam ser de todos.

Queria falar do futebol para não ter que sentir engulhos pela situação política partidária atual, com reflexos profundos na economia, na vida de cada um, com a volta da inflação e do desemprego, mas não consegui,

Então melhor encerrar por hoje.

Vou ficar no fato de ser um privilegiado no futebol.

Cada vez que se fala em José Dirceu, na mídia ou nos poderoso de plantão, entro em depressão, de ver como um país pode andar para trás.