Opinião

Nome aos bois


A imprensa, que denuncia crimes que se confirmam pelas investigações policiais e nas instâncias jurídicas, é chamada de golpista


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 16 de Agosto de 2015 às 10:53

  | Historiador


Parece que ainda não ficou suficientemente claro que algo muito grave está acontecendo no Brasil desde há alguns anos, e que pode ficar muito pior nos próximos dias. 

A imprensa, que denuncia crimes que se confirmam pelas investigações policiais e nas instâncias jurídicas, é chamada de golpista. Joaquim Barbosa, que cumpriu com suas obrigações de magistrado na mais alta corte do País, foi desacatado, ofendido e constrangido. 

A parcela expressiva da sociedade que protesta pacificamente contra os desmandos do governo é preventivamente ameaçada com o “exército” do Stédile  e com a pregação da luta armada feita no próprio Palácio do Planalto.

Há,neste momento que vivemos no País, uma desproporção entre ações e reações na política que merece o mais atento acompanhamento das autoridades que ainda estejam dispostas a merecer tal título. Note-se bem que, a cada ação legal e legítima, no caso, da imprensa livre, da justiça e da sociedade, vem correspondendo uma reação ilegítima do PT. 

Afinal, não pode mais haver dúvida que é ilegítimo investir contra órgãos de imprensa por que eles fazem denúncias que são legalmente apuradas e confirmadas, que é ilegítimo atacar magistrados e cortes por cumprirem suas funções institucionais e que é ilegítimo constranger com ameaças físicas a população que deseja protestar pacificamente contra a situação no Brasil.

É urgente e necessário que se ponha fim a essa ilegitimidade que perpassa várias camadas da nossa vida política e social e que vem sendo promovida de forma desabrida pelas lideranças do PT. A cada discurso, a cada programa partidário na TV, a cada pajelança paga com dinheiro público, a cada entrevista da presidente e a cada anúncio para enfrentar a crise, o que fica sempre evidente éo deboche, a afronta e a ameaça.

As notícias são adversas ao governo? A marquetagem saca rápido: a presidente as deflete com mandiocais de estultices que não deixam ninguém falar de outra coisa. As pessoas protestaram nas suas casas contra o programa do PT na TV? Não há dúvidas: desqualifique-as por atacado. Aproxima-se um protesto de rua conta o governo? Fácil: esprema-o no calendário entre atos patrocinados pelo governo que exalam truculência. 

A presidente não tem o que falar a respeito das investigações sobre seu governo? Moleza: arruma-se uma entrevista com pauta ensaiada para ela tachar as investigações de golpismo. O ex-presidente Lula está sendo investigado? Sem problemas: espalhe-se sua investidura ministerial, mesmo que isso desrespeiteas mais comezinhas normas de nomeação para cargos no primeiro escalão de governo. 

A crise está paralisando o País? Aí já é mais complicado, é preciso uma boa combinação de audácia e subserviência: o ex-presidente, sem mandato algum, convoca o vice-presidente da República, ministros e parlamentares, todos em exercício, para lançar numa das casas do Congresso uma agenda fictícia.

E assim chegamos ao atual estado de coisas. Não há dúvidas de que perdemos no Brasil todo e qualquer senso crítico, à vista do que aconteceu durante esta semana e que engolimos compassivos. Mais delongas de prazos que não poderiam ter sido admitidas, mais vistas de processos que deveriam ter sido vistos há muito, mais controvérsias em torno de quem vota o quê e mais fatos criados sem consistência e responsabilidade. 

Depois de tantos escândalos, delações, investigações, prisões e protestos, e por que não dizer, de tantas esperanças, delineia-se o quadro de que tudo vai acabar ficando na mesma, para os  mesmos, exatamente os mesmos, fazerem mais do mesmo. Simples assim. Fica aqui o desafio aos analistas do “não é bem assim”.

O mais inacreditável, para os que depositam toda sua esperança, e se pode falar até de fé, nas instituições, é que tudo parece não mais depender delas, mas sim dos protestos marcados para este domingo, dia 16 de agosto. Não deveria ser assim, mas, por incrível que pareça, é. Políticos, autoridades e assessores esfregam as mãos, ansiosos, muitos deles omissos, outros tantos culpados, torcendo pelo fracasso dos protestos que irá deixar tudo na mesma. 

No entanto, uma notícia no início da noite desta 6a feira deixou claro queo PT não está disposto a ficar parado. Ela dá conta da intenção dos diretores do Instituto Lula estarem presentes nas manifestações, insinuando que o próprio Lula também iria.

Mesmo que não ocorra esse comparecimento de petistas e seus líderes a uma manifestação que não é sua, já está consumada a provocação, cujos efeitos se desconhecem. Se ela tiver sido eficaz, vai esvaziar as protestos, para deleite do PT. Se ela não tiver intimidado a população e, ao contrário, levar mais pessoas à rua, vai colocar o PT e o governo em sérias dificuldades.

Mas uma coisa é certa. A população vai às ruas neste domingo e a escalada da ilegitimidade que agora chega às raias da confrontação tem que parar, imediatamente, para que o País resolva a crise que enfrenta pela via constitucional, democrática e legal. E por tudo o que se viu no País até agora, isso tem que ficar bem claro para o PT e seus militantes mais afoitos, pois, independentemente dos números e da repercussão das manifestações, se houver enfrentamento e violência, a culpa terá nome, endereço e bandeira.