Opinião

Nazipetismo


Ressalvados os contextos históricos, geopolíticos e culturais, cabe perguntar: quem trabalhou para a implantação de um regime dessa natureza no Brasil?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 11 de Outubro de 2018 às 18:56

  | Historiador


Seria cômica, se não fosse trágica, a tentativa da militância petista impingir  a seus adversários o qualificativo de fascistas, ou pior, de nazistas. Como não tem graça nenhuma brincar com a ignorância que embala uma desgraça, é bom recordarmos alguns fatos.

Adolf Hitler, o criador do nazismo, como seu ídolo Benito Mussolini, o fundador do fascismo, eram socialistas revolucionários. Ambos rivais do comunismo, por que concorrentes dele na destruição da sociedade burguesa que desprezavam.

Seu propagandista chefe, Joseph Goebbels, desde o início da ascensão do nazismo, trabalhou ingentemente para que seu chefe fosse visto como o líder dos socialistas alemães.

Como o terrível século XX demostrou, o critério direita x esquerda não se aplica aos regimes que destruíram a sociedade civil e dominaram todos os aspectos da vida social nos países onde tomaram o poder, como fizeram o nazista na Alemanha e o comunista na Rússia.

Direita e esquerda foram expressões da Revolução de Francesa que só tiveram sentido enquanto subsistiram as formas parlamentares do novo regime, que foram suprimidas pelo Terror, o embrião do totalitarismo moderno que não cabe no espectro ideológico da democracia.    

O socialismo do Leblon e dos Jardins pensa que pode dar aulas de história sobre nazismo, nas quais seleciona as vítimas que lhe interessam, esquecendo que líderes militares, religiosos e estudantis alemães foram perseguidos e mortos por resistirem a Hitler.  

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Pensa que pode fazer sua utopia a antípoda da monstruosidade nazista, emprestando-lhe alguma legitimidade.  

Não, não pode!

A Alemanha não deflagrou a 2a Guerra Mundial sozinha em 1o de setembro de 1939. Meses antes, assinou com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) o imoral pacto Molotov-Ribbentrop, pelo qual Hitler e Stalin combinavam mais uma partilha da Polônia.

No final do ano, o ditador soviético varreu os países bálticos do mapa e atacou a Finlândia que se defendeu bravamente e, apesar de vencida, preservou sua soberania.

Em junho de 1940, caiu a França, sem que os comunistas franceses levantassem um dedo contra a ocupação alemã e o infame regime de Vichy, o qual emitiu uma condenação à morte do general De Gaulle.

Londres foi bombardeada por aviões alemães voando com gasolina russa, enquanto no resto do mundo não atingido pela guerra os partidos comunistas se calavam sobre as violências do nazismo, até que este se voltasse contra a URSS no dia 22 de junho de 1941.

Essas reviravoltas ocorridas entre o pacto Molotov-Ribbentrop e a invasão alemã são magistralmente figuradas na ficção de George Orwell, na qual a multidão submetida ao controle do Grande Irmão, que, em determinado momento, ululava contra o inimigo exposto em um telão, aceita, quase sem hesitação, a sua transmutação em amigo, e, logo em seguida, de novo, em inimigo.

Sem espaço para dúvida, crítica ou questionamento. Só obediência.

A esse respeito, são bem conhecidos os trabalhos de Hannah Arendt (As Origens do Totalitarismo, 1949) e de Friedrich von Hayek (O caminho da Servidão, 1944) sobre as semelhanças entre nazismo e comunismo como inimigos da liberdade.

Em  outro clássico menos conhecido (Explicar o Fascismo, Le Interpretazioni del Fascismo, 1976), Renzo De Felice apontou que o fascismo se afirmou através:

1o)de um culto do chefe;

2o)de um regime de massa baseado no partido único e na milícia do partido e imposto por um regime policial e pelo controle de todas as fontes de informação e propaganda;

3o)de um revolucionarismo verbal e conservadorismo de fundo mitigado por concessões sociais do tipo assistencial;

4o) da criação de nova classe dirigente, como expressão do partido;

5o)da criação e valorização de forte aparato militar, claro, sob total controle do partido;

e 6o) da passagem da direção econômica dos capitalistas e empresários para os altos funcionários do Estado que passou a mediar todos os conflitos de trabalho e transformou a economia em uma autarquia.

Ressalvados os contextos históricos, geopolíticos e culturais, cabe perguntar: quem trabalhou para a implantação de um regime dessa natureza no Brasil?

A direita, a esquerda? Absolutamente.

Foi o PT, viu petistas?

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil