Opinião

Não é brincadeira


Imaginar que o Brasil vá alterar a destinação de suas Forças Armadas, sua política, vocação e História para abrir caminho a bala até Caracas a fim de derrubar um ditador desmoralizado é coisa que só pode sair da cabeça de quem desaprendeu de pensar


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 25 de Fevereiro de 2019 às 22:03

  | Historiador


A crise da Venezuela virou uma antologia de pajelanças encenadas por personagens burlescos dirigidos por um Maduro que já devia ter caído de podre.

A última do apreciador dos mais finos charutos e frequentador das mais caras mesas do mundo foi proclamar que a sua ditadura falida quer pagar pelos alimentos que impediu de serem distribuídos a uma população que não tem dinheiro para comprá-los.

Mas não é só na Venezuela que a crise virou uma peça de non sense. Por aqui, mesmo deixando de lado o discurso delirante do petismo que não sabe o que falar, há algo de surreal no noticiário a respeito da Venezuela.

A nota dissonante, que não cabe na pauta mas é diariamente martelada nos nossos ouvidos é guerra. Basta teclar a palavra no Google.

E ela continua a soar, apesar de um sem número de declarações, desmentidos e providências das autoridades civis e militares brasileiras.

Segundo esse jornalismo de ficção, uma sofisticada bateria antiaérea venezuelana foi posicionada na fronteira com o Brasil, no meio do nada, para fazer coisa alguma, a não ser ameaçar hipoteticamente a aviação brasileira até Boa Vista, ou talvez, quem sabe, cobrir a invasão de nosso território com forças blindadas que ninguém viu.

Precipitaram-se então nas páginas de alguns dos mais prestigiados jornais e revistas avaliações do poderio bélico brasileiro face ao venezuelano, para, last but not least, concluir pela insuficiência dos meios militares do Brasil para a guerra que estaria cogitando travar, a serviço do imperialismo ianque, contra o paraíso socialista encravado na América do Sul. Aliás, como fez o candidato presidencial petista no ano passado, causando constrangimentos até em sua campanha.

Pensando bem, coisa de maluco. E de imprudentes e inconsequentes.

Afinal, em uma sociedade com ampla liberdade de informação como a nossa, há responsabilidades compartilhadas perante a opinião pública. De um lado, obrigação do governo em prestar informações e esclarecimentos, e do outro, compromisso com a verdade por parte de quem faz notícia.

O Brasil tem um dispositivo militar de vigilância e cobertura de suas fronteiras compatível com a realidade político-militar do continente, afinado com as diretrizes de sua política externa e obediente à sua tradição constitucional que veda guerras de agressão e conquista.

Imaginar que o Brasil vá alterar a destinação de suas Forças Armadas, sua política, vocação e História para abrir caminho a bala até Caracas a fim de derrubar um ditador desmoralizado é coisa que só pode sair da cabeça de quem desaprendeu de pensar. Este sim, o grande estrago feito ao País nos últimos anos.

Ainda que nos faltasse tudo, bom senso, prudência  e mesmo um mínimo de informação sobre assuntos militares, os brasileiros devem ter bem clara a ideia de que guerra não é brincadeira.

 

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