Opinião

Nada de novo no Copom do BC?


A versão que corre é que o Banco Central está enviando uma mensagem cifrada ao mercado de que poderá elevar a taxa em uma das reuniões de 2016


  Por Roberto Fendt 27 de Novembro de 2015 às 10:21

  | Economista.


O Comitê de Política Monetária do Banco Central manteve a taxa básica de juros (Selic) em 14,5%. Até aí, nada de novo. A taxa vem sendo mantida nesse percentual desde a reunião do Copom de julho. A novidade está no resultado da votação.

Seis diretores votaram a favor da manutenção da taxa pela quarta vez consecutiva. No entanto, dois diretores divergiram dessa posição e votaram pelo aumento de meio ponto percentual, o que elevaria a Selic para 14,75%.

Há várias interpretações para essa divergência de votos. A versão que corre no mercado é que o Banco Central está enviando uma mensagem cifrada ao mercado de que poderá elevar a taxa em uma das reuniões de 2016.

Essa interpretação é consistente com a prática do regime de metas de inflação. Por esse regime, cabe ao BC atuar sobre as expectativas dos agentes econômicos. Para isso, deve privilegiar movimentos lentos e pré-anunciados, de forma a evitar turbulências no mercado.

Uma versão distinta se baseia na percepção de que é necessário mudar a política monetária já, se a pretensão é buscar uma taxa de inflação abaixo do limite superior da meta (6,5%) no início de 2017.

Manter a Selic em 14,5% por mais tempo poderia comprometer esse objetivo.

É difícil a tarefa dos membros do Copom nessa quadra. É evidente que a inflação se mostra renitente e pouco sensível à taxa de juros no atual patamar.

Mas não há como ignorar que ela já está dois dígitos e quando essa barreira psicológica é ultrapassada o risco de aceleração da alta dos preços aumenta.

Tudo tem ajudado a sustentar e, pior, acelerar a inflação. Por um lado, a alta do dólar, se favorece o balanço de pagamentos, joga lenha na fogueira da inflação.

Não somente os preços dos bens importados sobem; sobem também os preços de produtos que são aqui produzidos e destinados à exportação. Maior volume exportado em muitos casos significa menores volumes disponíveis para o consumo interno.

A competição entre os dois mercados acaba provocando também a alta dos preços dos produtos exportados.

Pior que isso, contudo, é a persistência do déficit fiscal. O saldo negativo das contas públicas do governo central é recorde, o maior desde o início da apuração dessa estatística.

O que seria um superávit primário positivo programado inicialmente transformou-se em um déficit superior a R$ 60 bilhões.

Isso, sem contar o pagamento dos juros da dívida pública, já que o conceito de déficit primário espelha apenas o balanço entre as receitas e as despesas operacionais do governo, antes do pagamento dos juros.

O que estamos assistindo hoje é reprise de filme antigo. Tentar compensar os efeitos de gastos fiscais fora do controle aumentando a taxa de juros mostrou-se sempre ineficaz.

Não somente é ineficaz porque a inflação resiste a cair com o aumento da taxa de juros. É duplamente ineficaz pelos efeitos colaterais desse aumento.

Taxas de juros mais elevadas inibem o investimento por tornar seu custo inferior à taxa de retorno esperado da aplicação dos recursos.

Esse efeito é magnificado em uma situação em que a economia está em recessão, o desemprego em alta e a renda dos consumidores deprimida. Nessa circunstância, independentemente do efeito sobre o custo dos empréstimos, o empresário reluta mais ainda em investir.

Há ainda um aspecto no aumento da taxa básica de juros que pode causar efeitos colaterais negativos mais relevantes. Juros mais altos atingem a rolagem de toda a dívida e aumentam os encargos a serem pagos.

Trata-se do que os economistas denominam “dominância fiscal”, essa singular situação em que o aumento dos juros pode ter um efeito oposto ao desejado.

Há grande controvérsia entre os economistas se estaríamos ou não em situação de dominância fiscal. A experiência com a alta persistente da inflação a despeito da elevação da Selic de 11% em setembro de 2014 para 14,5% vigente hoje mostra pelo menos que corremos o risco de ingressar numa situação de dominância fiscal.

Tudo isso evidencia duas coisas: a senhora presidente deixou-nos uma herança maldita, para usar a expressão que o ex-presidente Lula gostava de utilizar; e teremos de conviver com o retorno da inflação, que parecia domada com o Plano Real, tão criticado na época pelo PT.





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