Opinião

Muros e portas


A apresentação de um candidato marxista como defensor da democracia demonstra como esta pode ser destruída de dentro para fora, pela corrupção de suas próprias práticas


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 17 de Outubro de 2018 às 20:00

  | Historiador


A eleição presidencial no Brasil mostrará ao mundo como vive ou morre uma democracia.

Se a conduta do PT no poder e o seu programa para voltar ao poder não deixaram suficientemente clara a ameaça que ele representa ao Brasil, a apresentação de um candidato marxista como defensor da democracia demonstra como esta pode ser destruída de dentro para fora, pela corrupção de suas próprias práticas.

Como aconteceu na Alemanha, em 1933, na Tchecoslováquia, em 1948, e agora, mais próximo de nós, na Venezuela.

Nesses casos, ainda que não tenham ocorrido ataques diretos contra as instituições, por golpes de estado ou revoluções, minorias bem articuladas manobraram para tomar o poder e, em seguida, acabar com a democracia.

No caso do Brasil, seu tamanho, peculiaridades e a conjuntura internacional impõem uma estratégia gradualista para a conquista do poder.

Em uma primeira etapa, a aliança dos radicais alojados em diversos setores da sociedade com os líderes de uma classe política acostumada a ignorar a sociedade compôs um establishment que contempla uma democracia de fachada no País, onde, por trás do aparato assistencialista, avancem os objetivos de uns e permaneçam inalterados os interesses de outros.

No impeachment de Dilma ocorreu uma ruptura parcial dessa aliança, quando o patriarcado político se sentiu duplamente ameaçado, tanto por ser alijado do núcleo decisório do governo, como pela possibilidade de sua completa deslegitimação aos olhos da sociedade.

Agora, ameaçados tanto uns como outros pela revelação de seus crimes e pela perda de poder e privilégios, recompõem o velho condomínio, em busca de novas oportunidades.

É esse consórcio que usa todos os seus instrumentos, inclusive institucionais, para influir, por ação ou omissão, no curso dessas eleições. E é dentro desse quadro que se inserem as pedantes defesas da democracia por gente que nunca  se converteu completamente a ela.

Menos até pela chapa de partidos totalitários que ousam se apresentar como defensores da democracia do que por aqueles que instalaram no sistema universitário do País um projeto ideológico e não democrático e agora pretendem dizer quem é democrata ou não.

Mais sensibilidade política e menos arrogância intelectual poderia instilar nessa gente uma perspectiva mais prudente que os levasse a entender os desejos da sociedade brasileira por mudança.

Muros se levantam quando portas se fecham.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio