Opinião

Mister Trump e o Brasil


É compreensível que o senhor Trump faça demagogia. A experiência mostra que, na política, culpar os estrangeiros por problemas internos, reais ou imaginários, é a melhor estratégia


  Por Roberto Fendt 11 de Novembro de 2015 às 14:09

  | Economista.


Campanhas eleitorais para presidente são assim mesmo: muita promessa, demagogia e populismo. Nos Estados Unidos não é diferente do restante do mundo.

Agora mesmo o bilionário Donald Trump aproveitou uma ida ao programa “Face the nation”, da rede de televisão CBS para incluir o Brasil na lista de países que “roubam empregos” dos trabalhadores americanos.

Ficamos junto com a China, Japão e Índia nesse rol; só faltou dizer que formávamos uma quadrilha para privar do emprego o trabalhador local. Donald Trump é candidato a candidato à presidência dos EUA pelo partido republicano.

Disse mais. Afirmou que o problema é mais grave porque muitas empresas americanas estão deixando o país para produzir em outros lugares, de lá abastecendo o mercado mundial e empregando trabalhadores desses países.

A comparação que faz é curiosa. Disse ele que os próprios cidadãos americanos estão se mudando de Nova Iorque para estados em que são mais baixos os impostos, como a Flórida. E que as empresas estão deixando os EUA e se deslocando para a Irlanda porque há nesse país melhores oportunidades de negócios.

E oferece-se para resolver o “problema”. Na raiz dele estaria a ausência de “pessoas inteligentes” no comando. Pelo visto, tanto os presidentes Bush como Obama não pertencem a essa categoria de americanos, ocupada solitariamente pelo próprio Trump.

O que há de concreto nas acusações de roubo de empregos americanos pelo Brasil e outros países? Na verdade, nada.

Primeiro, porque o mercado de trabalho dos EUA atravessa uma fase gloriosa. A taxa de desemprego caiu abaixo de 5% no mês passado, a mais baixa desde abril de 2008.

Nesse mesmo mês, o número de empregados fora da atividade agrícola – na indústria manufatureira, construção civil e serviços em geral – aumentou 270 mil, um número muito superior às estimativas mais otimistas dos analistas do mercado de trabalho. O aumento do emprego foi generalizado, ocorrendo nos setores de serviços, cuidados de saúde, comércio, restaurantes e construção.

A título de comparação, a taxa média de desemprego nos EUA, de 1948 a 2015, foi de 5,8%. Não somente o mercado de trabalho está hoje mais aquecido que na média histórica; tudo leva a crer que um percentual em torno de 5% corresponde ao que os economistas chamam de desemprego “friccional”. Trata-se de pessoas que voluntariamente deixaram a força de trabalho, quer de forma transitória ou permanente.

Segundo, porque os produtos exportados pelo Brasil, pela China, pelo Japão e pela Índia não ameaçam os empregos nos segmentos em que residem as grandes vantagens comparativas dos Estados Unidos. Mais de 78% do PIB dos EUA é gerado em atividades englobadas sob a rubrica de “serviços”.

Uma parcela expressiva delas inclui atividades voltadas exclusivamente para o mercado interno, totalmente blindadas pela sua natureza da concorrência do restante do mundo.

Todo o transporte interno americano, os serviços de telefonia e comunicações em geral, toda a atividade bancária e financeira, portuária, de armazenamento, serviços públicos em geral e uma infinidade de outros serviços são prestados por cidadãos norte-americanos. Não há como importar esses e uma infinidade serviços de outros países. Essa é a realidade.

Se somente pouco mais de 20% do PIB dos Estados Unidos é gerado fora do setor de serviços, como as importações de bens do restante do mundo afeta o em estar do trabalhador americano?

Somente são importados bens cujos preços são inferiores aos similares produzidos nos EUA. São bens produzidos com custo menor que os similares americanos, quer porque os salários são mais baixos em várias partes do mundo, quer porque os bens incorporam matérias primas e produtos intermediários também mais baratos disponíveis nesses países.

O trabalhador americano beneficia-se dessa importação porque o seu consumo lhes custa menos no bolso. Caso os EUA ficassem totalmente ilhados do mundo, como quer o senhor Trump, o padrão de vida de toda a população se reduziria, forçada que ficaria a consumir produtos americanos mais caros do que os que dispõe hoje através das importações.

Finalmente, se os EUA se ilhassem não poderiam exportar aquilo em que reside sua vantagem comparativa: bens e serviços de alta tecnologia. Os empregos nesses setores ficariam comprometido.

É compreensível que o senhor Trump faça demagogia. A experiência mostra que, na política, culpar os estrangeiros por problemas internos, reais ou imaginários, é a melhor estratégia. Em geral, essa demagogia barata pode até trazer votos; só não garante que as promessas serão cumpridas depois de realizadas as eleições.






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