Opinião

-Mas, vem cá. E aí?!


Toda vez que na política brasileira aparecer algo estranho, grotesco como uma pérola barroca, ou a dita jabuticaba que só existe no Brasil, pergunte se passou pelo crivo do simples bom-senso do cidadão comum


  Por Jorge Maranhão 04 de Julho de 2018 às 17:28

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Duas notícias recentes de fatos de nossa vida política que mais parecem ficção: o presidiário Lula questiona na Justiça se não pode fazer campanha de pré-candidato de dentro da própria cela. Penso com meus botões: tem cabimento? 

Ou, na segunda notícia, faz sentido o Supremo determinar um deputado presidiário, que daqui a pouco já será uma bancada tenha o direito a despachar durante o dia no Congresso e se recolher ao seu domicílio na Papuda à noite? 

Notícias que remetem a outros casos esdrúxulos de nosso Supremo Jeitinho. Como o do ex-presidente do Senado que, por ser réu e não querer abandonar o cargo, teve declarada suspensa pelo Supremo “apenas” a sua intrínseca prerrogativa de sucessão à Presidência da República.

Ou uma ex-presidente, cassada por crime contra a administração pública, que manteve seus plenos direitos políticos e agora é candidata ao Senado.  

A instituição maior do Judiciário está caindo de podre. Perdeu totalmente a dignidade e o respeito da cidadania brasileira. Basta entrar em qualquer rede social, milhares de memes fazem chacota com o Excelso Pretório.  

Como já disse Nelson Rodrigues, “subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”. Toda vez que na política brasileira aparecer algo estranho, grotesco como uma pérola barroca, ou a dita jabuticaba que só existe no Brasil, pergunte se passou pelo crivo do simples bom-senso do cidadão comum. E se teria cabimento em qualquer outro país do mundo.  

Se o caso em exame ofender o princípio básico da razoabilidade do direito civil, o mais abrangente de todos os direitos desde o Corpus Iuris Civilis justiniano, ou o senso comum da chamada tradição dos usos e costumes de qualquer comunidade, não tenha dúvida de que você está diante de um barroquismo cultural, uma torção ou distorção típica da retórica barroca, que deve ser imediatamente questionada.   

Há explicações a dar com o pau para nossas mazelas, de ordem histórica, política, econômica, social e o escambau. Mas sou dos que apostam nas razões mais profundas de nossas origens culturais.

 Em todos os campos da atividade humana, podemos ser razoáveis ou desrazoáveis. Depende da permissão social da cultura dominante.

Como defendo que a nossa alma coletiva ainda é barroquista, ou encharcada de seus resquícios, disto decorre sermos retóricos, darmos nó em pingo d’água, abusarmos dos supostos direitos sem qualquer contrapartida de dever moral, cívico ou político.  

É a distorção da realidade do senso comum para justificar um interesse escuso, a torção do interesse público para escamotear um interesse privado, a apologia da farsa e da burla como fato costumeiro e natural, o abuso das figuras de retórica, que tem sido a prevalência da cultura barroquista da torção, contorção e distorção da realidade, tomada como insuportável pelo nosso desejo frustrado de resistir à evidência e à convivência com o outro.  

Depois de quatro séculos ainda presos ao labirinto barroquista, que dominou e perdurou em nossa cultura sem a necessária contraposição iluminista, estamos ficando exaustos da desrazão geral, esgotados da insensatez cotidiana, emergindo em nossas consciências pelo trabalho diário e incansável de nossos jornalistas, que, para se contrapor ao sanatório geral de nossos governantes, insistem em perguntar: - mas, vem cá!... E aí?!  

A ausência da dialética clássico-barroca em nossas terras - não apenas por impossibilidade histórica, mas pela vicissitude da negligência e omissão cívico-política de nossas elites – foi de arrasar! Só restou o bla-bla-blá, o nhem-nhem-nhém, a que se refere a imprensa com frequência.  

Esta, a pergunta que todos os agentes de cidadania estão a responder nas redes sociais a partir de uma simples questão: - E aí? Sempre na perspectiva de uma proposta para sanar uma distorção de política pública que tenta escamotear um interesse privado.

Pois, para argumentar para um público desconhecido, estando em jogo nossa autoestima básica, sobre fato de nosso pleno domínio, todos acabamos forçados a ser apenas razoáveis. Pois um novo paradigma se apresenta para além da campanha global “do Brasil que eu quero para o futuro”: o Brasil que eu posso ajudar a construir hoje. 

Pois vamos aos vídeos, cidadãos! 

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio