Opinião

Mário resolve, mas tem 60 anos. Quem o comprará?


Que a recessão é um desperdício a ser evitado é óbvio. Menos óbvio é o sucateamento do conhecimento dos mais experientes quando ficam desempregados


  Por Alfredo Behrens 29 de Junho de 2019 às 18:30

  | Professor de Liderança Intercultural no Global MBA da Universidade de Salamanca e na FIA Business School de São Paulo (behrens@usal.es).


O nível de desemprego entre os mais grisalhos avança mais rapidamente do que desemprego entre outros grupos etários, e tende a ficar pior. No entanto, esta é uma oportunidade para as pequenas e médias empresas que souberem aproveitar o talento dos desempregados muito experientes. 

Mário tem pouco mais de 60 anos, 35 dos quais como gestor de equipes. Podia ser Maria mas digo Mário. Ele trabalhou em vários setores sendo que nos últimos anos a experiência dele focou no de serviços. Geriu equipes de cem desenvolvedores de software e de mais advogados. No setor de serviços, gerir pessoas é quase tudo.

Mário não é um comercial, mas sabe gerir os fluxos de pedidos, a melhor alocação das tarefas, monitorar os processos e gerir o fluxo de caixa. Mas Mário está desempregado. A recessão drenou as vendas da última empresa para a qual Mário trabalhava. Mário era um dos mais caros e foi dos primeiros a ser desligado.

Como Mário há centenas, senão milhares. E com o envelhecimento da população haverá mais. Mas embora a história possa parecer apenas triste, ela pode ser o prenúncio de uma oportunidade.

Demorará até pessoas como Mário e Maria serem contratadas por empresas maiores. Mas, eles têm muito a dar a empresas de pequeno e médio porte, nas quais ganhariam menos, é verdade. Mas, por outro lado, os Mários já não precisam de ganhar tanto porque tem filhos criados e a casa paga. 

Aí é que mora a oportunidade. Pessoas como Mário oferecem alta produtividade a baixo preço. Só que ninguém sabe onde achar os Mários da vida.

Nem eles sabem a quem poderiam servir. Isto ocorre porque a perícia dos Mários desenvolveu-se em empresas de maior porte e por isso a network dos Mários é diferente do das empresas menores.

Por sua vez, são justamente estas as empresas as que precisam desesperadamente do conhecimento que os Mários trariam. Os Mários sabem como estruturar uma empresa para que possa crescer com segurança. Já sabem que cara a empresa deve ter. Esse conhecimento falta às crias das empresas menores. Mário sabe o que precisa ser feito e sabe fazer. 

O maior problema é casar os que sabem com os que precisam porque não sabem. Um software do tipo dos de relacionamento amoroso poderia ajudar. Há um serviço interessante na Alemanha: Comatch.com. Ele serve para ilustrar uma solução: oferece casar talentos com empresas.

Os talentos cadastram seus perfis na Comatch; tipo, sou bom disso e daquilo e a Comatch cobra das empresas quando elas contratam alguém que acharam pelo serviço Comatch. Nada mal quando se trata de aproximar quem sabe com quem precisa aprender. 

Mas, em geral, na Alemanha as pessoas confiam nos outros umas 8 vezes mais do que no Brasil. Aqui tem aquele comentário nefasto sobre os CVs: “papel aguenta qualquer coisa”.

Para deslanche a contratação de um desconhecido através de uma base de dados brasileira ajudaria ter uma entidade certificadora para resolver o hiato de confiança? Talvez poderia ser uma seguradora. Mário compraria um seguro que indenizaria a empresa contratante se o Mário tivesse mentido quanto às suas credenciais verificáveis, do tipo titulação, cargos ocupados em empresas e por aí vai.

Se Mário comprovadamente incidir na mentira, a seguradora aumentaria o preço do seguro do Mário, quem sabe ao ponto dele não mais querer comprar o seguro. Assim, quem quisesse contratar um Mário que não oferece garantias, saberia que está correndo com um risco maior.

Podemos pensar juntos em como resolver o problema. Ele precisa de solução porque o problema é grande, porque está crescendo e porque de desperdício ninguém precisa, menos ainda uma economia estagnada na qual o talento é relativamente escasso.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

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