Opinião

Manual de gestão para a queda de Maduro


A receita para que vingue a mudança não é muito diferente da que se observa na direção das empresas


  Por Alfredo Behrens 19 de Maio de 2019 às 09:02

  | Professor de Liderança Intercultural no Global MBA da Universidade de Salamanca e na FIA Business School de São Paulo (behrens@usal.es).


*Com  Newton M. Campos

Maduro eventualmente cairá. A questão é como encurtar o sofrimento do povo Venezuelano. Quedas de governos como o de Nicolás Maduro costumam acontecer num tempo relativamente curto.

Eles desmoronam, desde que haja uma convergência de intenções a favor da mudança, a ponto dela se tornar inevitável. Para que a percepção de mudança passe de desejável para inevitável é necessário diminuir a resistência a ela e alinhar todos os esforços a favor da mudança.

A receita para que vingue a mudança não é muito diferente da que se segue num caso de mudança na direção das empresas. Ilustraremos com o caso da Venezuela a estratégia seguida nas mudanças organizacionais nas empresas.

No caso da Venezuela a resistência à mudança tem vários atores mal e bem-intencionados. Entre os primeiros há os que só têm a perder com a mudança, como aqueles mais próximos da cúpula do governo, incluindo alguns empresários.

Mas a alta cúpula só sairá empurrada. Entre os empresários comprometidos com esta cúpula um caminho possível para diminuir sua resistência poderia envolver a ameaça de perdas maiores, proporcionais ao tempo que demorem em se unir à mudança.

Nas empresas esta resistência se expressa no comportamento de muitos altos executivos que, sem a mudança, poderiam aspirar cargos mais altos, mas que com uma mudança veriam as suas apostas ameaçadas.

Entre os resistentes bem-intencionados há os compreensivelmente avessos ao risco de uma mudança caótica ou desordenada. Aqui temos empresários de pequeno e médio porte, militares de patentes baixas e médias, funcionários públicos e não poucos políticos.

A maioria deles é de atores honestos que investiram um longo tempo nos seus negócios ou carreiras e não podem arcar com uma perda total.

Nas empresas esta resistência aparece mais entre as pessoas de meia idade e acima, que se perderem seus empregos demorariam mais tempo a achar algo comparável num ambiente turbulento.

Entre estes, na Venezuela e nas empresas, costuma ser preferível um problema conhecido do que um problema anônimo.

Assim, para converter os renitentes nas empresas, como na Venezuela, é necessário mostrar que o problema conhecido é bem pior do que parece: em plena instauração de um narcoestado de alcance global, onde a perda para todos será inevitável. Nas empresas o inevitável seria a quebra delas. Sem mudança os empregados também perderiam seus empregos.

Deve-se assegurar os empregos e carreiras públicas, mobilizando também fundos para permitir a sobrevivência dos pequenos e médios empresários que garantem a maioria dos empregos, sem rancor contra todos que tenham acreditado no sonho socialista do chavismo.

A isso deve-se somar a comunidade política e acadêmica internacional e os líderes religiosos. No mundo dos negócios este movimento de persuasão seria feito entre credores, supridores e a banca. Na Venezuela os credores mais evidentes, chineses, russos e cubanos, seriam os que mais tem a perder com a queda de Maduro. Os que tem a ganhar são os que caladamente estão apoiando a Guaidó.

Há uma importante luta a desenvolver no nível simbólico. Até agora a oposição a Maduro só tem oferecido martírio. Mesmo Moisés prometeu uma terra de mel e leite.

Neste momento, falta alegria às propostas de mudança de Guaidó. A oposição fragmentada já se deixou roubar os símbolos pátrios como Bolívar, o hino e a cor vermelha. Falta à oposição a Maduro se valer de uma simbologia unificadora, que faça de 2019 um ano histórico.

Ela pode, por exemplo, convocar a compositores para que desenvolvam músicas encorajadoras, humoristas e cartunistas para que derrubem a autoestima da cúpula do governo, jornalistas e fotógrafos para que exponham os efeitos da ditadura.

Nas empresas este movimento é levado adiante por líderes carismáticos. A falta de carisma do Guaidó pode estar no âmago das dificuldades da oposição na Venezuela.

As forças da oposição na Venezuela já são fortes o suficiente para mostrar com fatos que ela almeja mais do que somente a queda de Maduro.

Além da esperança, elas devem começar a oferecer policiamento, atendimento médico, escolaridade e cultura de forma coordenada nos campos de refugiados e na diáspora venezuelana, demonstrando uma capacidade de mudança que deve ir muito além da mobilização pela sobrevivência.

No mundo das empresas este crédito está dado pelo curriculum de quem propõe as mudanças. Deve ser capaz de implementar o que promete, e uma boa evidencia é oferecido num passado crível do executivo: deve ter podido demonstrar sabe do que está falando. Isto falta a Guaidó.

Guaidó esta coberto de razão, mas falta-lhe carisma para alinhar as forças da oposição e o crédito próprio que assegure que saberá o que fazer quando Maduro cair.

Mas, tal vez a própria inadequação de Guaidó, ilustrada nas suas camisas com abotoaduras, seja a sua força; a da certeza que será fácil encosta-lo quando o governo de Maduro ruir. No mundo dos negócios seria difícil alguém tão pouco capaz de liderar ser catapultado a capitanear uma mudança.

*Newton M. Campos é Professor de Empreendedorismo em Economias Emergentes na FGV EAESP e na IE Business School da Espanha (newton.campos@fgv.br).

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio