Opinião

Mais uma vez


Estimulado pelo marxismo ocidental que encontrou seu novo proletariado, o radicalismo do Islã promove uma guerra contra o Ocidente em todas as frentes da vida social


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Novembro de 2015 às 13:10

  | Historiador


Mais uma vez uma guerra foi imposta, e mais uma vez ela terá que ser assumida.

A guerra chegou, de novo, à França e o seu presidente François Hollande já a assumiu, na resposta implacável que prometeu ao Estado Islâmico.

Fala-se agora no 11 de setembro francês, como se pode falar no  11 de março (2004) espanhol e no 7 de julho (2005) inglês, sempre tomando como referência o que ocorreu naquela fatídica terça-feira de 2001 em Nova York, Washington e Filadélfia.

O que aconteceu nos Estados Unidos foi maior do que tudo que já ocorreu no mundo em termos de terrorismo, mas o que se passou na noite de 13 para 14 de novembro de 2015 em Paris significa o início da guerra que o Ocidente se recusava a assumir.

Foi chocante em 2001 assistir à maior democracia do mundo balançar em seus pilares, tendo por alguns dias seu mercado de valores paralisado, seus aviões colados ao chão e suas lideranças imobilizadas.

Porém, mais uma vez, os Estados Unidos demonstraram sua determinação e capacidade de reação,  levantando-se em armas, apoiados pelos países que defendem a democracia e a liberdade, os quais, incluindo o Brasil, lhe deram na ONU o aval para a guerra justa contra o infame regime talibã no Afeganistão, patrocinador do maior atentado terrorista da História.

Não foi difícil, no entanto, para os tradicionais inimigos da liberdade e da democracia, fazer do 11 de setembro uma questão afeta aos norte-americanos.

Privadamente, não conseguiram esconder sua satisfação com os bárbaros atentados que vitimaram cerca de 3.000 pessoas, enquanto ostensivamente colocavam a questão no único campo em que admitem discutir qualquer questão relevante: a desigualdade e os direitos humanos, esquecendo-se que as origens de uma e o desrespeito a outros estão quase sempre em outros quadrantes que seu fanatismo lhes impede de enxergar.

Lamentavelmente, os Estados Unidos os ajudaram, e muito, cometendo o erro de desencadear outra guerra por motivos distintos, no mesmo momento histórico, o que permitiu que se misturasse a guerra no Afeganistão com a guerra do Iraque.

O campo de batalha se ampliou, passando das montanhas e desertos para as ruas, universidades e jornais, dos milhares de combates em torno do mundo para os incontáveis debates e textos nas cátedras e redações, da ação para o pensamento, e contaminando quase todos os aspectos da vida social nos países situados na linha de frente dessa nova guerra: migrações, refugiados, trabalho, moradia, direitos civis, religião, ideologia e educação, de uma lista apressadamente aqui reunida.

E por que uma guerra? Porque em cada um  desses aspectos a dinâmica é de conflito e confronto, jamais de acomodação, adaptação, conciliação e composição. Estimulado pelo marxismo ocidental que encontrou seu novo proletariado, o radicalismo do Islã promove uma guerra contra o Ocidente em todas as frentes da vida social, a principal delas a do conhecimento, na qual também vamos capitulando.

Basta ler, por exemplo, a publicação de uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, Harvard, "The Classical Tradition" (First Harvard University Press paperback edition, 2013), cuja finalidade foi estabelecida pelos editores de forma bem clara: "fornecer um guia confiável e abrangente para a assimilação da antiguidade clássica greco-romana, em todas as suas dimensões, em culturas posteriores".

Dentre as áreas de pesquisa que se podem valer dessa obra de referência, está a epistemologia medieval, que abrange um largo espaço e um tempo longo, bem como uma elite de intelectuais cristãos, judeus e muçulmanos que deixou um contributo sólido para o pensamento ocidental.

Mas logo se experimenta uma surpresa desagradável quando se percebe que Santo Tomás de Aquino (1225-1274) não foi incluído na lista de artigos da obra, ao mesmo tempo que se encontra o filósofo muçulmano Avicena (c. 980-1037) nomeado como o autor de "um sistema que harmonizou, racionalizou, e completou toda a discreta tradição da filosofia aristotélica ..." (p. 113), que "a sua lógica, uma versão revista e ampliada do Organon de Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), alcançou o status de método científico único de realização de pesquisas "(Ibid.), e que "a sua teoria da alma, que vai muito além de Aristóteles em De anima e dos seus comentaristas, introduziu novas teorias sobre a função do intelecto" (Ibid.).

Estas afirmações, combinadas com a ausência de Santo Tomás de Aquino, podem levar à conclusão de que Avicena é o autor único da epistemologia e metafísica medievais, como querem à outrance não poucos professores universitários no Brasil, mais do que os historiadores muçulmanos, colocar o Islã no centro da Idade Média.

Mas a preocupação aumenta com a leitura do artigo sobre Santo Agostinho (354- 430). Além do tom negativo, o texto, menor em mais da metade do que se escreveu sobre Avicena, contrariamente à extensa lista de obras do muçulmano, apontou da vasta produção de Agostinho apenas a Cidade de Deus, taxando-a de "operática" e "melodrama", desconsiderando obviamente o alcance do trabalho do Santo Agostinho em sua contribuição seminal para a ciência e a filosofia, como expoente que foi da Patrística, um período decisivo para a absorção do legado clássico pelo pensamento ocidental.

Estamos, portanto, diante de uma guerra, não de um encontro, de civilizações. E é preciso que se assuma que não é o Ocidente que está impondo essa guerra, guerra que começa pela cultura.

Nunca é demais repetir que o desiderato da guerra é a paz, que o discurso da paz não é o de guerra e a guerra tem que ser vencida para se conquistar a paz, mesmo quando a guerra é incompreendida.

É sintomático que a tragédia de Paris tenha ocorrido apenas dois dias depois da comemoração do L’Armistice (11 de novembro), a vitória na 1a Guerra Mundial.

Como nos Campos Catalúnicos (451), como em Poitiers (732), como em Verdun (1916) e como na Normandia (1944), os livres se alinharão para defender a liberdade, e dessa vez, também, o bem maior que o Ocidente legou à Humanidade: a Democracia. E no único lugar onde essa guerra poderá ser combatida e vencida em todas a suas expressões.

Mais uma vez, na França!