Opinião

Mais um ano de ACSP


Trabalhar no Instituto de Economia da ACSP me possibilitou acompanhar a profunda transformação do Brasil de um posto de observação privilegiado


  Por Marcel Solimeo 11 de Setembro de 2020 às 14:02

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Comecei a trabalhar na ACSP, no Instituto de Economia “Gastão Vidigal”, em 11 de Setembro de 1963, completando hoje, portanto, 57 anos na entidade.

Nesse período trabalhei com 13 presidentes, aos quais servi sempre com lealdade e dedicação, conseguindo o respeito de todos, o que muito me orgulha.

Convivi com centenas de diretores, conselheiros e companheiros de trabalho, o que me permitiu formar uma grande quantidade de amigos, muitos dos quais já falecidos, mas que permanecem em minhas lembranças.

Quando entrei na Associação, o Brasil começava um processo de transformação de um país agrário, com quase 70% da população na área rural, para uma nação mais urbanizada e com uma industrialização ainda incipiente.

O Brasil era a 49ª nação em termos de tamanho da economia, com um PIB da ordem de 23 bilhões de dólares da época, e que atravessava grave crise política, econômica e social.

Trabalhar no Instituto de Economia da ACSP me possibilitou acompanhar a profunda transformação do Brasil de um posto de observação privilegiado, convivendo com os empresários, com os quais aprendi, e ainda aprendo muito. Tive a oportunidade de analisar o impacto dos acontecimentos políticos internos e externos, e dos fatos e medidas econômicas não apenas do ponto de vista macro, mas principalmente pelo ângulo das empresas e dos empresários, os verdadeiros agentes do desenvolvimento.

Se fosse tentar resumir a principal característica dessas quase seis décadas, poderia usar duas palavras: instabilidade e mudanças.

Para se ter ideia da instabilidade basta citar alguns fatos. Desde que entrei na ACSP tivemos 3 constituições (e centenas de emendas na última). Tivemos 13 presidentes da República, 30 ministros da fazenda, sem contar os interinos.

Os empresários tiveram que conviver com oito Planos Econômicos, a maioria com congelamentos de preços, intermediados, muitas vezes, por políticas econômicas erráticas que sempre intervinham no mercado.

A população brasileira mostrou sua versatilidade ao conviver com oito moedas, sem contar os longos períodos de inflação elevada em que o valor do dinheiro se reduzia a cada dia.

Curiosamente, desde de 1963, vivemos vários contrastes: moratória da dívida externa e atualmente uma reserva cambial de 380 bilhões de dólares; hiperinflação e no momento as taxas mais baixas do índice; “milagre econômico”, quando o país cresceu a uma taxa média anual de 11% e, no presente, a mais grave recessão da história; crise do petróleo, quando o país parou por falta de combustível e a abundância de hoje como exportadores e detentores de grandes reservas;  confisco da poupança e, durante período prolongado as mais generosas taxas de juros para os poupadores ( e mais altas ainda para os tomadores de crédito).

Para completar, precisamos ver agora como o governo vai agir com relação ao aumento dos preços dos alimentos. Aí, saberemos se o país mudou ou vai começar outra vez a ciclotimia da política econômica.

Acredito que esse breve resumo seja suficiente para mostrar porque o Brasil não é ainda uma nação desenvolvida.

Para completar a explicação faltaria analisar os aspectos institucionais e políticos que foram responsáveis por toda instabilidade e o descaso histórico com a educação, mas isso escapa do meu objetivo no momento.

Para finalizar, respondo a uma pergunta que me fizeram muitas vezes. Por que fiquei tanto tempo na ACSP se tive várias oportunidades durante todos esses anos?

Minha resposta é que sempre me identifiquei com os princípios e valores da entidade e acredito poder contribuir, mesmo modestamente, na defesa deles. Além do ambiente que sempre tive de respeito de todos.

Alguns dizem que foi positiva essa longevidade, outros, no entanto, dizem que é muita falta de imaginação.

 

IMAGEM: Paulo Pampolin