Opinião

Itararé em Davos


Para reconquistar alguma legitimidade, a esquerda agora aponta o dedo para aqueles que menospreza e chama de derrotados, os que a venceram nas urnas das maiores democracias do Ocidente


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 21 de Janeiro de 2019 às 21:39

  | Historiador


 

Pode faltar muita coisa à esquerda: juízo, prudência, responsabilidade e, mais do que tudo, coerência. Mas se há algo que não lhe falta é imaginação. Sua mais recente pirueta é a falácia de que foi derrotada pelos derrotados da globalização.

Os derrotados, segundo ela, é todo aquele pessoal que trabalha duro, paga impostos e sabe o que é, quer e faz. Não a massa de desvalidos, migrantes, desempregados, desajustados e desabrigados de que ela se vale para acumular poder.

Mas o que parece mera cara de pau tem razão de ser.

De tempos em tempos, a esquerda volta ao seu leitmotiv antissistema. Esgotadas as causas da luta de classes em que se inventou; das guerras de libertação do Terceiro Mundo que ela inventou; e da ecologia em que ela se reinventou, a esquerda encontrou nas chamadas políticas identitárias sua nova causa.

Claro, identidade naquilo que lhe interessa para desconstruir a sociedade: de gênero, cor, orientação sexual, até de peso, ou qualquer atributo, característica, opção ou motivação individual que possa ser usado para jogar uns contra outros.

Já a identidade nacional, cultural ou outra mais abrangente que agregue as pessoas em uma comunidade cívica de direitos e deveres é de antemão taxada de racista, elitista, intolerante ou, pura e simplesmente, fascista, como consta do bestiário do besteirol esquerdista.   

Depois da vitória do Brexit, da derrota nas eleições norte-americanas e do fracasso de suas políticas nos principais países da Europa, restou à esquerda se fazer de liberal,  acomodada em alguns dos melhores think-tanks e redações do mundo.

E para reconquistar alguma legitimidade, ela agora aponta o dedo para aqueles que menospreza e chama de derrotados, os que a venceram nas urnas das maiores democracias do Ocidente, acusando-os de serem uma ameaça à democracia no Ocidente.

Esse é o círculo do absurdo que a esquerda quer reabrir no presente encontro do Fórum Econômico Internacional em Davos, desta vez como insider e não black block, para proclamar o fim da ordem mundial e propor outra.

Não falta, portanto, quem sonhe com uma batalha de posições em Davos. Vão ficar desapontados, pois como a de Itararé, ela não acontecerá. Os vencedores vão a Davos para falar ao dinheiro que tem por regra não se meter no que não deve.  

Só isso, e é muita coisa.

Mas tem gente que se auto-convidou e daqui se abalou sem entender isso muito bem.

 

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