Opinião

Infundadas incertezas


As alegadas incertezas do chamado mercado, este ente imperscrutável para os simples mortais, me parecem meras especulações. Até agora, as instituições têm funcionado a contento da cidadania


  Por Jorge Maranhão 27 de Maio de 2018 às 18:28

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Diante do grave momento vivido pela nação, é importante se ter em conta o perigo de ruptura institucional em que a cidadania foi jogada por esta casta de políticos irresponsáveis e corruptos!  

Acompanhando os movimentos de cidadania das redes sociais, fica claro que uma greve de caminhoneiros está evoluindo para mais uma megamanifestação como as havidas em 2013 e 2015, onde pode sobressair a tentação totalitária de uma minoria, com consequências imprevisíveis para o país. 

Por outro lado, pesquisas responsáveis e imparciais, elaboradas por grupos de investidores independentes, como esta da XP Investimentos, demonstram que nas eleições presidenciais de 2018, mantendo o quadro institucional vigente, não prevalecerão opções heterodoxas ou de outsiders, como se tem especulado na grande mídia.  

A questão de fundo é: será que as instituições político-eleitorais permitirão a devida e substantiva renovação da representação política tal qual a cidadania está a exigir?  

Diante dos mais exaltados intervencionistas e os mais moderados conservadores, temos de ter muito cuidado nesta hora!

Sobretudo os cidadãos mais experientes que já viveram momentos decisivos da história do país e têm o dever cívico de liderar o processo político em curso!  

As alegadas incertezas do chamado mercado, este ente imperscrutável para os simples mortais, me parecem meras especulações. Até agora, as instituições têm funcionado a contento da cidadania.  

Como gostam de chamar os mais doutos economistas, quais seriam de fato os fundamentos macroeconômicos para a instabilidade, a subida do dólar e a correspondente gangorra da queda da Bolsa e suas consequências?  

Se alguns economistas, se esquecendo de que sua ciência faz parte da política, vêm a público apontar a incerteza das eleições, que me digam se algum processo eleitoral é previsível em alguma superior democracia do mundo. Foram previsíveis as eleições dos EUA? E as da França? E as da Áustria?  

A mesma boca que amaldiçoa a política, na verdade não gosta é do burburinho buliçoso de controvérsias da custosa democracia. Se não contra as inseguranças políticas, costumam vociferar também contra as inseguranças jurídicas.  

Neste campo, devo dizer que, por mais que se critique o foco número um de instabilidades institucionais brasileiras, o STF, que deveria ter a compostura de instituição máxima e exemplar da justiça, mas leva quinau de qualquer juiz federal de primeira instância, sequer se entende como instituição, com 11 ministros jogando cada um por si, supremos e vaidosos ministros de um time absurdo de 11 goleadores.  

Mas parece que, ao contrário da promessa de posse da meritíssima Cármen Lúcia, a justiça anda, devagar, mas anda, apesar de nosso supremo jeitinho, para além dos costumes sociais enraizados em nossa alma barroquista.  

Não há bom senso que sobreviva a tamanhas farsas, o prende-solta, o solta-prende, o é-que-não-é, o pode-ser-que-não-seja.  

O pão-de-queijo contra o pão-pão-queijo-queijo! 

Quanto às demais instituições brasileiras, estão funcionando muito bem, obrigado. Poderiam funcionar melhor, é verdade, se não fossem exatamente as cúpulas carcomidas dos três poderes. 

A conivência com grande parte da classe política apodrecida, a velha política esperneando para tentar abortar o nascimento da nova política.  

Assim ocorre com as cúpulas do Legislativo e do Executivo.  

Mas a do Judiciário, a questão maior é a fogueira das vaidades, e a inveja pura e simples da minoria sempre vencida estar sendo achincalhada nas redes sociais em face da eficiência de jovens juízes de primeiro grau celebrados pela opinião pública.  

O que resulta no esperneio da criança malcriada que, mais birra faz quanto mais ciúmes sente do elogio da mãe ao irmão que se comporta bem. 

Senão, vejamos: ressalvadas as cúpulas amorais, nunca funcionaram tão bem as demais instituições da República, como o Ministério Público, a Polícia Federal, a Advocacia Geral, os Tribunais de Contas, a Defensoria Pública etc. Algo de sério a reclamar? 

Até mesmo as instituições parlamentares vão bem, apesar de suas cúpulas e graças a seus quadros funcionais estáveis e concursados. Apesar de grande parte de seus chefes estarem comprometidos com as investigações da Lava Jato, as instituições seguem servindo aos cidadãos. Ou não? 

Assim como os órgãos técnicos até mesmo do Poder Executivo, alheios ao comprometimento de seu chefe maior, dão prova de que as instituições, como Banco Central, Receita Federal, Forças Armadas, Relações Exteriores, e até mesmo muitas instituições de ministérios como da Saúde, Educação, Defesa e outros, mesmo que tenham tido injunções políticas nas nomeações de suas cúpulas, vão de bem a melhor. Ou não?  

Mas a visão de mundo desastrada, estreita e anacrônica do barroquismo nacional, e seus sucedâneos como o romantismo, o positivismo, o anarco-sindicalismo e esquerdismo, de uma intelectualidade parasita da burocracia estatal, e uma mentalidade patrimonialista de nossas ditas elites sociais, têm sido hegemônicas no Brasil, o avesso ao racionalismo do mais elementar bom senso, a grande farsa de que todos podem enganar a todos durante todo o tempo. 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio