Opinião

Inflação x deflação: qual o menor dos "males"?


São duas “patologias” econômicas a serem evitadas pelas autoridades econômicas mundo afora, sendo complexo determinar qual delas seria a mais nociva


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 12 de Fevereiro de 2016 às 16:41

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água
(Isaías 1.22)

É sabido, mas, muitas vezes esquecido nesses “Tristes Trópicos”, que a inflação, definida como aumento generalizado e contínuo dos preços, produz inúmeros males econômicos e até sociais.

Em primeiro lugar, como dizem os economistas, a inflação é o “imposto do pobre”, pois, se bem reduz o poder aquisitivo de toda a população, afeta em maior medida o grupo de menor renda, que gasta em sua quase totalidade em itens básicos, tais como alimentação.

Nesse sentido, a inflação pode ser metaforicamente comparada ao sistema tributário brasileiro, “regressivo” por natureza, ao basear a maior parte da arrecadação no consumo, implicando em carga tributária relativa mais elevada para os mais pobres, aumentando a desigualdade de distribuição da renda.

Os desenvolvimentistas “de plantão” (aqueles economistas para os quais o único que importa é o crescimento do PIB, sendo a inflação um “custo da causa”), seja na “Planície” ou no “Planalto”, esquecem que, embora a inflação, quando decorre de aumentos do gasto público ou privado, possa ser “amiga” do crescimento econômico no curto prazo, termina por aumentar o risco de novos empreendimentos, redundando em diminuição do investimento produtivo, e, portanto, da capacidade de expansão futura da atividade.

Não existe em toda a história econômica nenhum caso de um país que tenha sido “milagre do crescimento”, que apresentasse, paralelamente, taxas elevadas de inflação. 

Outro problema suscitado pelo aumento contínuo e generalizado de preços é o encarecimento da produção nacional, levando naturalmente à perda de competitividade frente às importações.

Décadas atrás, os episódios de alta inflação e hiperinflação (inflação mensal maior ou igual a 50%), experimentados pelas economias latino-americanas, costumavam vir acompanhados de agudas crises nas contas externas.

Por último, mas não menos importante, as famílias mais abastadas, após satisfazer suas necessidades básicas de consumo, têm o incentivo de minimizar a perda de poder de compra gerada pela inflação, aplicando os recursos restantes no mercado financeiro ou na compra de ativos mais estáveis, como o dólar, por exemplo. 
Durante as décadas de oitenta e noventa era comum o recurso de depositar de um dia para o outro no overnight, comprar um carro usado ou uma linha de telefone, pois esses “investimentos” geravam rendimentos, que embora fossem menores do que o aumento do custo de vida, permitiam compensá-lo em parte.

O problema é que essas atividades de “evasão” do “imposto inflacionário” consomem recursos e tempo, que deixam de estar disponíveis para outros usos, constituindo-se, por esse motivo, em custo adicional para a sociedade.

Do ponto de vista social, a história das grandes inflações mostra que, paralelo ao aumento exorbitante dos preços, há uma destruição do “tecido social”, com a elevação do número de crimes, surgimento de fanatismo político e, em geral, estímulo a comportamentos pouco éticos, devido à ênfase exacerbada nos resultados de curto prazo.

Se a inflação produz tão terríveis “chagas” econômicas e sociais, seu oposto, a deflação, deveria então ser preferida? A resposta, como se verá, é um não absoluto, pois esta, trata-se, na verdade, de um fenômeno raro, associado comumente ao “estouro” de “bolhas financeiras”.

Quando o mercado se dá conta de que o alto valor dos ativos financeiros e imóveis não se justifica pela “lei da oferta e da procura”, e sobrevêm a queda abrupta de seus preços, a liquidação antecipada desses ativos intensifica esse processo. 

Assim, aumenta o “descasamento patrimonial” inicial, pois diminui o valor dos ativos ou garantias, enquanto as dívidas crescem em termos monetários. Essa perda de riqueza faz o consumo das famílias desabar, produzindo queda generalizada nos preços.

Além de agravar a crise econômica decorrente da crise financeira, a deflação, uma vez instalada, mergulha o país em prolongada recessão, pois a expectativa de continuidade da queda dos preços incentiva o consumidor a adiar suas compras, paralisando a produção e a contratação.

O Japão não consegue recuperar sua economia desde a crise financeira ocorrida em 1990. Isso também explica o temor que os Estados Unidos e os países europeus nutrem por este fenômeno, levando à aplicação de elevados estímulos fiscais e principalmente monetários desde 2008.

Sendo assim, poder-se-ia dizer que a inflação e a deflação são duas “patologias” econômicas a serem evitadas pelas autoridades econômicas mundo afora, sendo complexo determinar qual delas seria a mais nociva. 

Tampouco seria necessário levar a taxa de inflação para zero como objetivo de política econômica, como equivocadamente se acreditou nos anos oitenta, pois estudos recentes mostram que uma inflação positiva, porém “baixa” (de 2% a 3% anuais) seria compatível com um crescimento sustentado das economias.

Ou seja, “um pouquinho de inflação não dói”. De qualquer forma, sempre há o risco de, encampando a ideia anterior, ir “alargando” essa margem de tolerância, como bem mostra nossa experiência mais recente com o sistema de metas de inflação, e, por isso, seria importante contar com um Banco Central de direito autônomo, e comprometido por lei em manter a inflação dentro do intervalo anterior.

Nesse sentido, podemos dormir sossegados, pois nossa economia está longe de qualquer surto deflacionário -ao contrário do que ocorre com vários países desenvolvidos. Porém, nossa meta “teórica” anual de inflação, “esquecida” em 4,5% há anos pelo Conselho Monetário Nacional, se encontra muito acima do recomendável para um país que aspira a ser desenvolvido.





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