Opinião

Ideologização sexual: do desencanto à amargura


A etapa de criminalização, ou no mínimo de condenação moral, da opinião contrária já está em pleno curso, e atesta o caráter totalitário dessa transformação


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 10 de Julho de 2015 às 12:15

  | Historiador


Toda ficção tem um significado. Desfrutá-la, num bom livro, filme ou peça teatral, pode nos causar distintas sensações, desde o prazer estético que aguça nossa sensibilidade até o horror natural que exprime nossa repulsa ao futuro inumano que nos ronda. 

Esse foi o efeito da imagem literária, criada por Aldous Huxley (1894-1962), de um futuro com crianças erotizadas, sem mães e onde não mais existiriam relações afetivas duradouras.

Porém, esse “Admirável Mundo Novo” de Huxley não estava tratando de comportamento, sexualidade ou educação, e sim de política, ao prenunciar, naqueles sombrios anos 30 do século passado, a luta entre liberdade e totalitarismo que chegaria até os nossos dias.

A ficção de Huxley é brutal e paradoxal, na medida em que demonstra a viabilidade da consecução de um fim político pela destruição, não de estruturas ou valores, mas sim da primeira e mais básica instituição social: a família.

Seria o desenrolar do “terrível século XX”, com seus antecedentes e derivativos ideológicos, que se encarregaria de comprovar a lógica totalitária que faz da família o primeiro alvo do rearranjo radical pretendido pelos que sonham com o paraíso na terra.

Afinal, a família antecede e supera o altruísmo pregado por Marx em favor da espécie humana como um todo. E qual seria a origem dessa primazia da família?

Em “Our Posthuman Future: consequences of the biotechnology revolution   - livro por certo mais importante do que “The End of History and The Last Man” -  Francis Fukuyama, ao denunciar os riscos do uso da engenharia genética, reafirma a existência de uma natureza que é peculiar ao ser humano, permitindo-lhe dar respostas emocionais inatas que orientam a formação de ideias morais relativamente uniformes, como o cuidado com os filhos pequenos e pais idosos, o repúdio ao incesto e ao canibalismo, o engajamento em reciprocidade e vingança, a atribuição de causalidade aos acontecimentos e tantas outras.

É dessa insuperável, inevitável e indescartável natureza humana que provém a família, constituída pela união de homem e mulher com vistas à continuidade da espécie e capaz de, pela complementaridade entre os sexos, gerar, criar, prover, proteger e educar meninos e meninas segundo o potencial de desenvolvimento natural de cada um deles.

Claro está que essa peculiar comunidade criará especiais laços entre os seus membros, não só consanguíneos, porém, acima de tudo, afetivos, os quais se traduzem em termos como maternidade, paternidade, irmandade e familiaridade, fortes e profundos o bastante para expressarem em qualquer linguagem humana muito mais do que as relações dos quais se originaram.

Negar a família é, portanto, negar, muito mais do que a espécie, a natureza humana e o próprio ser humano.

Só uma utopia poderia conceber tal desiderato, a extinção da família. E tal como na ficção de Huxley, essa utopia só poderia ser política.

No Estado ideal concebido por Platão, entre os constituintes da classe superior dos guardiões, a instituição do matrimônio seria substituída por uma união transitória entre os sexos com o propósito de gerar impessoalmente os melhores pelos melhores, a ideia suprema do “sacrifício do indivíduo ao Estado”, nas palavras de Werner Jaeger em seu Paidéia.

Meras procriadoras selecionadas, amamentadoras de quaisquer bebês sem conhecer os próprios filhos e atletas formadas para a guerra, as mulheres do ideal platônico proviriam não só de um espartano sistema de controle social, mas, antes, de um amplo programa educacional feminino que procurava igualar as culturas de gênero.

Já se disse muitas vezes que nem sempre o que acontece depois é melhor.

A história da humanidade é uma recorrência infindável de avanços e recuos, principalmente pelo conhecimento e esquecimento. Platão, em sua ficção, esqueceu até a origem do sentimento do amor, “a entrega total da alma e dos sentidos” que só a mulher, na sua individualidade, nos albores da Grécia Clássica, nos séculos VII e VI a.C., foi capaz de exprimir pela poesia erótica de Safo de Lesbos, transformando a sensibilidade masculina.

Não foi à toa que Platão procurou suprimir a poesia na sua concepção de Estado, negando qualquer autoridade moral alternativa a ele.

A pregação da ideologia de gênero, o combate ao ensino religioso,  a propaganda da igualdade de gêneros, as campanhas pela liberação do aborto, a militância legiferante homossexual, o estímulo à permissividade sexual, a desconstrução da família como a união do homem e da mulher e a erosão da autoridade dos pais, dentre outras iniciativas, conformam um quadro de busca de transformação da sociedade pela tomada do poder, não por ativistas de minorias, mas por radicais ideológicos muito bem aparelhados, no caso do Brasil, situados no núcleo do poder.

A etapa de criminalização, ou no mínimo de condenação moral, da opinião contrária já está em pleno curso, e atesta o caráter totalitário dessa transformação. Estamos falando, por conseguinte, não de comportamento ou sentimentos, mas sim de política.

Mas essa ideologização sexual, aparentemente bem-sucedida, não mudará a sociedade, e muito menos a natureza humana. Como já aconteceu tantas vezes aos utópicos, tudo o que resultará disso será mais um desencanto, com o qual voltarão às sombras de suas especulações.

Mais amarga será a sensação dos companheiros de viagem quando descobrirem que foram instrumentos de uma causa muito maior da qual jamais suspeitaram e com a qual, na sua busca de reconhecimento e igualdade, jamais concordariam.