Opinião

Fogueira das vaidades


Quando estão em campanha eleitoral o comportamento é um; quando eleitos, chegando ao poder, adotam outro


  Por Reinaldo Cafeo 29 de Março de 2019 às 10:12

  | Economista, é presidente da Associação Comercial e Industrial de Barueri


O livro “A Fogueira das Vaidades”, foi escrito na década de 1980 por Tom Wolfe, com prefácio da edição brasileira de Paulo Francis. Esse título me veio à mente resumindo em parte o momento que o Brasil passa, tanto na economia, como na política.

De um lado a população clamou por mudanças e isso foi confirmado na eleição do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro.

Por outro, os eleitos para o Congresso Nacional não representam necessariamente uma renovação e, como estrato da sociedade, agem independentemente de ser a nova ou velha política.

Quando estão em campanha eleitoral o comportamento é um; quando eleitos, chegando ao poder, adotam outro.

Mesmo com inúmeros erros na condução inicial de seu governo, Bolsonaro tenta emplacar as chamadas reformas estruturais e agora mais especificamente a reforma da previdência social.

Precisando dar velocidade, optou pela via mais rápida que foi o apoio à eleição de Rodrigo Maia para presidência da Câmara dos Deputados.

Este se colocou como parceiro de primeira hora, indicando que, se dependesse dele, as coisas andariam com velocidade. Isso tudo antes da eleição.

Após assumir a presidência da Câmara dos Deputados, sua postura já foi outra. Insisto, o presidente Bolsonaro deu motivos, mas a “vaidade”, fruto do poder, fez com que Maia mudasse seu comportamento.

Começou a criticar a forma de o governo conduzir o processo política, exigiu mais articulação, enfim, fez “beicinho” ao Executivo, se posicionando de maneira mais contundente, incluindo o novo discurso de que irá ser “somente” presidente da Câmara dos Deputados e não mais um articulador das reformas.

Mas a vaidade vai além do Congresso Nacional. A equipe de Bolsonaro também se rendeu ao poder e à vaidade. Ministros dificultam reuniões com parlamentares.

Alguns se isolaram tanto que agem como se o poder executivo se bastasse em si. Isso sem falar dos inúmeros “foras” no tocante à forma com que encaram e pensam sobre os mais variados temas. Quase uma mediocridade institucionalizada.

Além dos ministros ainda tem a família Bolsonaro, mais especificamente seus filhos. Neste particular agem como se estivéssemos em uma monarquia, em que o Rei, o Paizão Bolsonaro, tudo pudesse e eles, com herdeiros do trono, poderiam agir sem nenhum filtro, dando palpites e emitindo juízo de valor de toda em todas as áreas.

Enquanto tudo isso acontece os indicadores econômicos não saem do lugar e as projeções do crescimento da economia são revistos para baixo.

De um crescimento na ordem de 2,5% já projetamos 2%. Os agentes econômicos estão cada vez mais tensos e ansiosos, o mais simples cidadão fica sem entender porque o emprego não volta.

O que se questiona é até porque os “vaidosos” do poder não conseguem praticar o senso coletivo.

Qual o real motivo de em campanhas eleitorais serem humildes, amigos do povo, que possuem solução para os graves problemas do País e quando chegam ao poder, se isolam, e passam a priorizar o interesse pessoal.

Estamos terminando o primeiro trimestre do ano, em que a sociedade brasileira jogou suas fichas fortemente no “novo”, contudo, este “novo” que tem que conviver com o “velho” precisa entender que de vaidade em vaidade o País apura a deterioração dos indicadores sociais e com ele a precarização da vida dos brasileiros.

Se há “fogueira de vaidades” que parte da classe política, os poderosos vaidosos, sejam eliminados pela fogueira e com isso tenhamos um novo modelo político no Brasil.

Não podemos mais perder tempo. O que está em jogo é a perda de qualidade de vida e o crescimento do caos social.

Senso coletivo meus caros “vaidosos” políticos.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio