Opinião

Figueiredo, ou o fim patético do regime militar


Elio Gaspari publica último dos cinco volumes de sua história do regime militar. Retrata o governo do general João Figueiredo e descreve em detalhes suas desorientações e a falta de gosto pelo exercício do poder


  Por João Batista Natali 11 de Julho de 2016 às 10:32

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Em nenhum momento o jornalista e historiador Elio Gaspari se pergunta se o regime militar (1964-1985) foi bom ou ruim para o Brasil. Mas ele mergulha em seus problemas internos para concluir que o quinto presidente do ciclo, João Batista Figueiredo (1979-1985), foi do começo ao fim um fracasso nos campos econômico e político.

Gaspari se tornou um autor de referência pelos cinco volumes que publicou sobre o período, os quatro primeiros pela Companhia das Letras, e o quinto, recém-lançado pela Intrínseca.

E todos eles com uma linguagem elegante e sedutora, que prende a atenção e nos leva a um mergulho delicioso na História.

O grande mérito da empreitada foi o de evitar a sociologia de botequim, com flautulências de pseudo-verdades, como se a história se limitasse ao movimento de grupos supostamente coesos – as elites, a classe média, os interesses populares – que se enfrentariam ou se alinhariam pelo butim do poder.

As coisas são mais complicadas. Têm personagens e projetos difusos. Para entendê-los, Gaspari lançou mão de fontes privilegiadas e inéditas, como os arquivos pessoais dos generais Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, ou do capitão da reserva Heitor de Aquilo, um hábil e experiente personagem de bastidor.

O volume que fecha o ciclo da história do regime militar brasileiro não traz revelações bombásticas. Reforça informações que já circularam em abundância sobre o envolvimento da « tigrada » - integrada por homens do aparelho repressivo inconformados com a abertura gradual do regime - no patético atentado do Rio Centro (1981) ou no assassinato do jornalista Alexandre von Baungarten (1982), um ex-cadete da Marinha que se misturou à chamada comunidade de informações.

Esse grupo, inconformado com a abertura política, já havia explodido bombas em bancas de jornais, em protesto pelas revelações de jornais alternativos (como "Movimento") e encaminhado uma carta-bomba à sede da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) que matou uma secretária da presidência.

TRECHO:

O regime instituído em 1964 cassou os direitos políticos de 1.088 cidadãos. Afastou 3.250 civis do serviço público e 1.387 militares, entre eles 55 oficiais-generais. Condenou cerca de 11 mil pela Lei de Segurança Nacional, baniu 125 e levou ao exílio entre 3 mil e 5 mil brasileiros. Foram mais de 1.800 casos de tortura e mais de 400 mortos ou desaparecidos.

 

A questão, no entanto, não está para Gaspari na busca da verdade já conhecida. Ela se situa nos mecanismos minúsculos em que o poder funciona por meio de uma complicada teia institucional que tem como pano de fundo a hierarquia das Forças Armadas.

Gaspari discorre sobre a perda das bases sociais do regime e os efeitos desastrosos de tudo isso na economia, entre 5 de outubro de 1978, oficialização de Figueiredo pelo Colégio Eleitoral, em que a Arena, partido oficial, tinha confortável maioria, e 15 de março de 1985, quando Tancredo Neves deveria sucedê-lo no Executivo, depois de ter derrotado Paulo Maluf no mesmo colegiado.

O regime militar havia perdido suas duas principais bandeiras do período pré-1964. A moralização do Estado estava comprometida por uma cadeia de corrupção na rede de estatais agigantada pelo governo Ernesto Geisel, sobretudo na Eletrobras, e nos contratos de infra-estrutura, sobretudo os de expansão da rede rodoviária.

A suspensão da censura no governo Geisel reativou, sobre a corrupção, o lado investigativo da mídia. Praticamente tudo já foi publicado, razão pela qual « A Ditadura Acabada » não tem muito mais a fazer, exceto listar episódios e colocar seus efeitos nos movimentos internos do estômago do regime autoritário.  

A outra bandeira dos militares havia sido em 1964 o combate à inflação, que no entanto, com Figueiredo, chegou a 215% anuais ao fim do governo, comparados aos 78% deixados pelo governo deposto de João Goulart.

O curioso nessa escalada é que Figueiredo, suas confidências estão no livro, julgava-se uma vítima de todas as bombas de efeito retardado colocadas pelo general Geisel. Jejuno em economia, avalisava os movimentos de Delfim Netto, que se desfizera do rival Mário Henrique Simonsen e reassumira o papel de « tzar da economia » que já havia exercido durante a presidência do general Medici.

Com artérias entupidas, o que o levou à cirurgia nos Estados Unidos, Figueiredo tem sua imagem reforçada naquilo que ele tem de menos edificante.

É um presidente que administrava (mal) a rotina, sem diretrizes que poderiam ter impedido a fragmentação de sua base de sustentação no Congresso e sem evitar que Paulo Maluf - e não Mário Andreazza - se tornasse o candidato oficial à sucessão presidencial.

Deu no que deu. Nenhum dos dois levou, quem levou foi Tancredo Neves, mas quem passou a governar foi o mediano José Sarney, até então um dos líderes da Arena, o partido oficial.

Uma das partes mais saborosas neste último volume do projeto de Elio Gaspari estão nas 68 paginas finais, com uma recapitulação biográfica dos 500 personangens – dos presidentes-militares aos prisioneiros políticos que aceitaram acalguetar para o aparelho repressivo. É uma espécie de visita com visão personalizada desses 21 anos de história do Brasil.

Os bons livros são aqueles que são lidos "numa só sentada". Pois é amplamente o caso desse último volume da história recente da política brasileira pesquisada por Elio Gaspari.

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