Opinião

FHC - Franco, mas nem sempre coerente


O livro é um documento precioso, mas contém observações no mínimo controvertidas. Vale ler


  Por Aristóteles Drummond 11 de Novembro de 2015 às 14:03

  | Jornalista


O diário lançado pelo ex-presidente FHC, correspondente aos seus dois primeiros anos de mandato, foi uma iniciativa exitosa. Quem faz ou acompanha a política não pode deixar de ler o depoimento vivo do dia de um presidente da República, que teve um bom desempenho e é uma figura respeitada.

Como ninguém é perfeito, o livro mostra a ingenuidade do político, natural no ser humano, em confiar em alguns companheiros pouco merecedores, sempre envolvidos em intrigas e futricas palacianas, disputas menores, fatos que não escaparam as observações por vezes ferinas do ex-presidente.

Realmente, o Palácio deixou a desejar em termos de personalidades com nível compatível a parte do ministério e ao próprio presidente.

Fica muito clara a fragilidade, por exemplo, dos Srs. Clovis Carvalho e Eduardo Jorge – este último nomeando dois irmãos e interlocutor em quase 200 telefonemas trocados com o famoso Juiz Nicolau (Lalau), do TRT paulista, envolvido em obra superfaturada.

As explicações dadas a esta intimidade não podem ser consideradas convincentes, permitem dúvidas.

Quem tem espírito público e vocação para servir tem seu lugar nos comentários do dia a dia do então presidente. Entre eles, destaque para os ministros Pedro Malan, da Fazenda, Luís Felipe Lampreia, das Relações Exteriores, e Zenildo Lucena, do Exército.

E ironias francas a características de figuras polêmicas no governo, como os ministros José Serra e Sergio Motta, cujo comportamento destoava do estilo elegante e cordial de FH.

A narrativa, que tem a marca da fidelidade das observações feitas a cada dia, com oportunas notas de rodapé, carrega algumas incoerências.

Logo na página 52, narra conversa com importante empresário em que este revela que, no Ministério das Comunicações, “se roubava de alto a baixo”, quando o ministro era Djalma Moraes, homem de confiança do presidente Itamar Franco e seu antigo colega de Ministério.

Adiante volta ao nome do Djalma como vetado pelo Sergio Motta para presidir a TELESP em função de malfeitos quando dirigiu a TELEMIG. Em nota de rodapé, informa que nada ficou provado. Mas deixa a dúvida e mostra incoerência, pois acabou por nomear o mesmo Djalma para a vice-presidência executiva da Petrobras BR.

O livro é um documento precioso, mas contém observações no mínimo controvertidas. Vale ler.