Opinião

Feliz 2026: novos tempos virão


Como criar o futuro pode ser muito mais interessante do que prevê-lo, convido os leitores a acionarem seus radares de observação e a assumirem o protagonismo de seus próprios “amanhãs”


  Por Rosa Alegria 05 de Janeiro de 2016 às 16:02

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


Vivemos tempos de intensa mudança e  num ritmo acelerado sem precedentes em toda a nossa história. Numa época em que a constante é a mudança, planejar para 2016 pode ser improdutivo se não olharmos com maior elasticidade ao  que passou e ao que está por vir. Alongar a dimensão do tempo sem sair do presente.

É o que a socióloga Elise Boulding chamou de “presente longo”. Olhar para o presente longo na dimensão do antes e depois pode nos trazer maior consistência e segurança naquilo que buscamos em nossas vidas e em nossos negócios. 

Se olharmos para dez anos atrás, podemos registrar em 2006 uma época política  turbulenta  e uma economia  incerta. Mas ainda com a moeda brasileira valorizada sob o protesto dos exportadores  e altas constantes na Bolsa, apesar de uma desaceleração em andamento. A inflação ainda era baixa e o consumo ainda seguia a galope.

Economia frustrante e tecnologia estimulante.  Foi quando o Wii trouxe o entretenimento para dentro de casa, a informática ampliou sua função social com a campanha “Um laptop para cada criança” e o You Tube  encantou a rotina dos internautas começando a roubar audiência da TV.

Foi também quando a Venezuela entrou no Mercosul, fez promessas chavistas que foram um fracasso. Michele Bachele impunha ao feminino um novo estilo de poder ao ser a primeira mulher a presidir um país da América do Sul depois do peronismo masculinizado da argentina Isabelita.

O Brasil vivia o começo da crise da era Lula mas ainda celebrando o milagre da ascensão da classe média e do bem sucedido combate à fome e à miséria.  

Apesar de intenso, 2006 foi suave perto do que 2015 viria a ser. Quem poderia prever o que viria a acontecer em 2015?  Haja fôlego e bola de cristal!

Continuando nesse exercício de alongamento mental, convido a pensar: o que poderá acontecer em 2026? Como estaremos na segunda metade da segunda década do século 21?

Com esse ritmo que a cada ano se acelera, tem sido cada vez mais difícil  imaginar como estaremos daqui a dez anos mas dentro do campo das projeções podemos - mediante análises e pesquisas – nos preparar melhor para o que é plausível acontecer e que poderá impactar fortemente a economia, nossas vidas como cidadãos e consumidores.  

Começo esse ano a identificar alguns movimentos que são fortes sinais dos novos tempos. 

A era da desglobalização

Em junho do ano passado, a BBC perguntou: “O mundo vive uma desglobalização?” Essa é uma questão que tem repercutido em vários canais com respeitável consistência.

Desde a crise financeira de 2008 o que era antes a magia da globalização se converteu em decepção com mercados e investimentos retraídos e o capitalismo indo para a berlinda.

Comunidades produtivas, sociedades locais, grupos ativistas em torno de diferentes causas têm se mobilizado em torno de ações práticas e mais imediatas obtendo mais do que poderiam obter de um mundo globalizado.

O tempo e o desenvolvimento urgem pelo local. O sonho integrador da União Européia fez o sonho acabar com  a recente crise dos refugiados. Estaremos nos desglobalizando para construir pontes inter- regionais ou para erguer muros de protecionismo e segregação? De uma coisa podemos estar cientes:  o mundo não é mais global como era nos anos 90. 

Mobilidade conectada
A industria automobilistica tem equipado cada vez mais seus produtos com sistemas inteligentes e a tendência é que esses sistemas façam com que os veículos se comuniquem entre si e interajam com semáforos, sistemas de segurança e de controle de tráfego.

Veículos autônomos em ascensão poderão  prescindir de agentes de trânsito e motoristas e fazer decrescer os acidentes. Como será o futuro das seguradoras? Como impetrar juridicamente um culpado ou um inocente em acidentes de trânsito, que mesmo embora sejam pouco prováveis, poderão acontecer? O que será dos motoristas de ônibus e dos taxistas?

Estudo recentemente iniciado pelo Projeto Millennium, rede global de pesquisadores futuristas da qual faço parte,  vai procurar responder a essa e outras questões no decorrer dos cenários a serem desenvolvidos sob o tema “Trabalho/ Tecnologia 2050”. 

Produção customizada
A sociedade tem se voltado  para dentro num movimento de caracol,  revelando um novo fenômeno que muitos chamam de individualismo e que eu vejo como sendo a ascensão da individualidade.

Uma individualidade tão minuciosa como se fosse genômica e que requer uma profunda transformação de todos os setores produtivos.

A crescente demanda por produtos e serviços hipercustomizados requer a reengenharia na gestão das engenharias e novos desenhos nas plantas de produção. As novas tecnologias poderão acelerar essa mudança e recriar modelos industriais, como destaca recente estudo realizado pela Z_Punkt, consultoria alemã especializada em prospectiva estratégica e tendências de futuro. 

Jornalismo sem jornalistas
Jornalistas de negócios e esportes as vezes necessitam trabalhar de forma repetitiva e monótona, o que só traz tédio e stress.  Para acaber com isso entrará a robótica na produção de pautas repetitivas, e que já começa a ser aplicada,  liberando repórteres que precisam atualizar leitores com resultados financeiros periódicos e que exigem velocidade e precisão.

Prova disso é a recente aliança da Associated Press com a  empresa de tecnologia Automated Insights (AI) que através da plataforma Wordsmith tem a capacidade de produzir até 2.000 matérias por segundo. A previsão é a de que na próxima década,  90% das notícias sejam geradas por computadores. 

Conhecimento perfeito

Se é possível conhecimento  ser perfeito eu não sei. Mas estamos nos aproximando disso.  Em 2026, um novo mundo, com 8 bilhões de pessoas hiperconectadas com trilhões de sensores coletando dados em qualquer lugar e em qualquer situação. Carros autônomos, satélites, drones, câmeras, acessórios.

Tudo isso em redes integradas nos permitirá saber qualquer coisa a qualquer momento, estejamos onde estiver e conseguir respostas e insights instantâneos. Além disso, daqui a dez anos, a capacidade de processamento do cérebro humano será igualada por um computador que custará a bagatela de mil dólares. 

Realidade desmaterializada

Virtualizar a realidade tem sido um dos mais importantes investimentos de gigantes da economia intangível.  Facebook, Google, Sony, Microsoft e Qualcomm tem direcionado fortunas para novas realidades que não propriamente aquelas vividas de forma materializada.

As telas de nossas TVs, celulares e computadores serão substituidas por diferentes espécies de óculos. Mas não tão desengonçados como  o Google Glass. Serão peças fashion, superestilizadas.  De posse de realidades virtuais, continuaremos vivendo a nossa humanidade? Sim, mas seremos humanos de forma diferente.

Que se preparem as indústrias, os varejistas, as escolas, as agências de viagem, os restaurantes, os cinemas, as casas de espetáculo e vários outros protagonistas da economia. 
 

A reinvenção da saúde
A progressiva migração conceitual da saúde, que no passado tinha a ver com ausência de doenças e passou a se definir como a predominância do bem estar está movimentando a indústria do setor e provocando a criação de novos modelos de negócios orientados por mais eficiência e mais amplitude de cobertura.

Se até o nosso sistema público de saúde (SUS) passou a integrar e legitimar terapias alternativas como massagem oriental, acunpuntura, quiropatia entre outras, o que  não dizer das velozes start-ups que estão aquecendo as inovações,  assim como as gigantes mundiais que estão investindo nessa área?

Essa  indústria representa hoje US$3.8 trilhões e está desmaterializando, demonetizando e democratizando o atual sistema lento, ineficiente e burocrático.

Sensores biométricos,  avanços da genômica,  a nanotecnologia e a robótica estão nos dando a capacidade de sermos  nossos próprios médicos.

A atual e crescente vigilância com relação aos alimentos é também sinal dessa mudança. A industria alimentícia não será nunca mais a mesma a partir das sanções da ONU, do crescimento dos orgânicos e da consciência coletiva em torno dos agrotóxicos e substâncias nocivas da comida industrializada. O futuro em 2026 será  o da revolução da saúde e do bem estar.

Simplicidade voluntária

Entre as profissões do futuro podemos destacar o  “gestor da simplicidade”. Aquele que se especializa na descomplicação da vida seja em tarefas, processos ou escolhas.

Bem provável que em 2026 profissionais capacitados em lidar com a simplicidade sejam até mais bem cotados do que os diplomados em engenharia ou informática.

Essa simplicidade poderia estar sendo imposta por conta das limitações impostas pela crise econômica, mas ao contrário, tem sido voluntária, pautada em novos valores e em  novos significados do que é viver e ser feliz.

Aos poucos ter coisas demais, consumir com excesso, acumular coisas em espaços finitos, querer sempre mais, crescer sem limites, passou a não fazer mais sentido não só para quem quer sentir a vida tal qual ela pode ser, como também para setores que produzem bens e serviços. A simplicidade será a nova ordem socioeconômica em 2026.

Como criar o futuro pode ser muito mais interessante do que prevê-lo, convido os leitores a acionarem seus radares de observação e a assumirem o protagonismo de seus próprios “amanhãs”.  Poderá ser muito divertido e prazeroso escrevermos histórias desejadas e definirmos sonhos alcançáveis. Afinal nada mais prático do que pensar no futuro porque é o resto do tempo que temos para viver. 

Feliz 2026 a partir de hoje!






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