Opinião

Falência e desordem


Em um mês de funcionamento da denominada equipe de transição, o governo em formação parece estar perdendo a sua consistência programática, o que pode inviabilizá-lo antes de seu início


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 06 de Dezembro de 2018 às 20:06

  | Historiador


“Sou verdadeiramente o síndico de uma falência, cuja massa falida está numa desordem incrível”. As palavras de Castello Branco cabem a outro mandatário de origem militar eleito para o cargo mais de cinquenta anos depois.

Como é natural na História, existem mais diferenças do que semelhanças entre as duas situações, muito embora, tanto Jair Bolsonaro como Castello Branco, cada um à sua maneira, tenham, como presidentes eleitos, sua imagem associada à das Forças Armadas, um ativo importante para a recuperação da autoridade e da confiança no País.

De resto, o Brasil era menor em 1964 e hoje os seus problemas são muito maiores.

No início da década de 60, o País estava com sua economia em um beco sem saída, engessada por um arcabouço institucional, jurídico e fiscal dos anos 30.

O surto reformista protagonizado por Castello e Roberto Campos foi suficiente para romper as principais amarras corporativas e antiempresariais, e colocar o Brasil no rumo do crescimento e modernização.

Atualmente, por conta de má gestão, corrupção e estatismo, o Brasil enfrenta uma crise econômica sem precedentes que transborda a todos os setores da vida nacional.

Internamente, tanto a administração pública como o investimento público estão sendo inviabilizados, devido ao aumento das despesas primárias obrigatórias, o que, além de aumentar o endividamento público e comprometer sua sustentabilidade, influi negativamente na confiança dos agentes econômicos, no equilíbrio macroeconômico e no PIB.

Como aponta o relatório de informações estratégicas do Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão, se nada for feito, em 2021, esse dispêndio será de 98% das despesas primárias totais do governo, quando já teremos nos transformado numa grande Grécia tropical à deriva por própria conta e risco.

Externamente, o estrago à imagem do Brasil está prestes a se consumar com o atraso no pagamento de contribuições a organismos internacionais e nas subscrições de capital em bancos e fundos internacionais.

Como indica a mesma fonte, no final do próximo ano, esse passivo pode chegar a R$ 5 bilhões, expondo o País a sanções administrativas, impedimento de participação na elaboração de normativas de produção e comércio, rebaixamento na classificação de risco e restrição a operações de crédito internacional.

O quadro pré-falimentar do País é preocupante, mas o que é assustador é a desordem. Não a da burocracia do Estado que, brasileiramente, acostumou-se à bagunça, mas pelo menos tem a gentileza de mostrar ao novo governo o tamanho da conta.

A desordem que assusta é a da equipe reunida em torno de Bolsonaro, sobre a qual recairá, em pouco menos de um mês a enorme responsabilidade de enfrentar o passivo financeiro, econômico, social e político brasileiro.

Inicialmente, o País respirou aliviado quando viu ser constituído o tripé de excelência para a sustentação da nova administração baseado em governança pública, combate ao crime e racionalidade econômica, leia-se: Mourão, Moro e Paulo Guedes.

No entanto, em um mês de funcionamento da denominada equipe de transição, o governo em formação parece estar perdendo a sua consistência programática, o que pode inviabilizá-lo antes de seu início.

Inicialmente, cabe estranhar o sistemático fogo amigo disparado contra os notáveis em torno de Bolsonaro que representam o que temos de melhor para acabar com o caos administrativo, para enfrentar o crime e para fazer deslanchar a economia do País.

Em seguida, lamentar as declarações e movimentações de filhos de Bolsonaro que provocaram constrangimentos com a menção a uma conspiração interna para assassiná-lo e causaram prejuízos potenciais e efetivos ao interesse nacional e ao patrimônio das relações internacionais do Brasil.

Também cabem criticas às nomeações, adesões e infiltrações de figuras ambíguas, vinculadas às velhas práticas que o presidente eleito proclama querer erradicar, para o que conta com amplíssimo apoio da sociedade.

E por fim, aventar a possibilidade de estar havendo uma desorientação de fins e meios da equipe do governo em formação devido a um ativismo nada pragmático que não resolve problemas e cria outros.   

Jair Bolsonaro, o presidente eleito pelos brasileiros para mudar o País, deve assumir o controle de sua equipe de governo, cercando-se não dos áulicos, mas dos que escolheu por sua lealdade e competência.

A falência está aí. E ela vai chegar se a desordem continuar.

FOTO: José Cruz/Agência Brasil

 

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