Opinião

Europa: chegou a hora da verdade


É evidente que a troika fez uma proposta que lembra a estratégia de Vito Corleone [em O poderoso chefão]: uma oferta que o primeiro-ministro grego não poderia aceitar


  Por Paul Krugman 02 de Julho de 2015 às 20:46

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Muito bem, agora é para valer: os bancos gregos estão fechados e os capitais estão sob controle. A saída da Grécia da zona do euro já não está mais tão longe assim — a temida corrida aos bancos já aconteceu. Isto significa que a análise de custo-benefício é muito mais favorável agora à saída do que à permanência.

É claro, porém, que algumas decisões terão de esperar o resultado do referendo de domingo, que dirá se a Grécia aceitará, ou não, os termos dos credores.

JULIUS; Denmark/CartoonArts International/The New York Times Syndicate

Eu votaria "não" por dois motivos. Em primeiro lugar, porque por mais que a perspectiva da saída do euro assuste as pessoas — inclusive a mim — a troika [FMI, Banco Central Europeu e União Europeia] exige agora, e com todas as letras, que o regime de políticas dos últimos cinco anos prossiga indefinidamente.

Que esperança pode haver nisso? Talvez — repito, talvez — a disposição da Grécia de sair da zona do euro inspire uma nova reflexão (entretanto, é mais provável que não).

Seja como for, a desvalorização não vai criar um caos maior do que aquele que já existe, e abriria caminho para a recuperação futura, tal como já se viu em muitas outras épocas e lugares. A situação da Grécia não é tão diferente assim.

Em segundo lugar, as implicações políticas de um "sim" seriam extremamente preocupantes. É evidente que a troika fez uma proposta que lembra a estratégia de Vito Corleone [em O poderoso chefão]: fizeram uma oferta ao primeiro-ministro Alexis Tsipras que ele não poderia aceitar, e o fizeram conscientes disso.

Portanto, o ultimato, na verdade, tem com objetivo mudar o governo da Grécia. Mesmo que não gostemos do Syriza [atual partido no governo], a tática não deixa de ser inquietante para quem acredita nos ideais europeus.

Um ato de loucura monstruosa

Até agora, toda advertência sobre a ruptura iminente do euro não deu em nada. Os governos, não importa o que digam durante as eleições, cedem às exigências da troika.

Enquanto isso, o Banco Central Europeu intervém para tranquilizar os mercados. Esse processo manteve coesa a união monetária, mas perpetuou também um regime de austeridade profundamente nocivo — não deixemos que uns poucos trimestres de crescimento modesto em algum país endividado obscureça o custo imenso de cinco anos de desemprego em massa.

Na política, os grandes derrotados nesse processo foram os partidos de centro-esquerda, cuja leniência em meio a medidas implacáveis de austeridade — e consequente abandono de qualquer coisa que supostamente defendiam— fez a eles mais mal do que políticas semelhantes costumam fazer à centro-direita.

Tudo indica que a troika esperava, ou pelo menos tinha a esperança, que a Grécia fosse uma repetição dessa história. Ou Tsipras faria o que normalmente se faz nesse caso — abandonaria sua coalizão e seria obrigado a fazer uma aliança com a centro-direita — ou o governo do Syriza ruiria. Um ou outro ainda pode acontecer.

Contudo, pelo menos por enquanto, Tsipras não parece disposto a renunciar. Pelo contrário, diante do ultimato da troika, ele marcou um referendo que dirá se deve ou não aceitar o que lhe foi proposto. Isso tem deixado muita gente nervosa e levado muitos a tachá-lo de irresponsável. No entanto, ele está fazendo a coisa certa e por dois motivos.

Em primeiro lugar, se o governo grego vencer o referendo, terá reconhecido seu poder pela legitimidade democrática. Coisa que, acredito eu, ainda é importante na Europa. (E se não for, vamos ficar sabendo).

Em segundo lugar, até o presente momento a situação política do Syriza é de desconforto. Os eleitores estão furiosos com as demandas cada vez drásticas de austeridade, mas não querem deixar o euro. Nunca foi fácil compreender de que maneira esses dois desejos podem ser reconciliados. Agora, então, ficou ainda mais difícil.

O referendo, na verdade, pede aos eleitores que escolham o que consideram prioritário e deem a Tsipras o cacife de que ele precisa para fazer o que terá de ser feito caso a troika empurre o governo para a beira do abismo.

Se alguém me perguntasse o que eu acho disso, eu diria que as instituições e os governos credores cometeram um ato de uma monstruosidade insana quando forçaram as negociações a chegarem a esse ponto. Mas foi o que fizeram, por isso mesmo não posso culpar de jeito nenhum Tsipras por ter recorrido aos eleitores, em vez de se voltar contra eles.

TRADUÇÃO: A.G.Mendes






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