Opinião

Eu


“Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficientes para atacar a minha honra?" Essa bofetada soou no rosto dos brasileiros que se indignam com a corrupção que tomou conta do País


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Outubro de 2015 às 08:15

  | Historiador


O dia 13 de outubro vai passar à História do Brasil como a jornada do ultraje. Nessa manhã, expediram-se no STF liminares que podem ser muitas coisas, mas que consumaram, acima de qualquer coisa, a proibição de o Congresso votar, algo que jamais será esquecido, independentemente do resultado da crise nacional que o PT se esmera em agravar.

Foi o dia em que se proibiu o Brasil de votar, em que os representantes do povo, constituídos na Câmara de Deputados, a Casa do Povo, tiveram negada a sua atribuição por excelência: representar a vontade do povo brasileiro em meio a uma das maiores crises políticas do País.

Análises de todo viés vão se entrecruzar nos próximos dias, tentando informar ou desinformar a opinião pública a respeito do que aconteceu nessa fatídica manhã. Da militância petista remanescente, ensandecida, pouca ou nenhuma coerência se pode esperar.

Mas da maioria da população com discernimento suficiente para entender o que está se passando no País, independente de filiação partidária, preferência ideológica ou classe social, pode-se, e deve-se, esperar o julgamento do que foi julgado liminarmente nessa manhã de 3a feira, dia 13: o STF impediu a Câmara de Deputados de votar. Nem mais, nem menos.

Quando isso aconteceu no País? Quando um dos poderes do Estado brasileiro teve poder suficiente para impedir que uma questão de suma relevância para o País fosse deliberada e votada no plenário da Câmara de Deputados do Brasil? Nem mesmo em 1984, num dos momentos mais tensos do final do regime militar, cogitou-se de impedir a votação da emenda Dante de Oliveira.

Ao longo de nossa acidentada história política, não faltam capítulos nos quais o parlamento foi silenciado, caracterizando o autoritarismo então vigente. Mas isso nunca aconteceu no decorrer de uma normalidade democrática.

O que mais impressiona no ocorrido nesta 3a feira é que nenhuma voz no parlamento se tenha erguido contra o véu autoritário que desceu manso sobre o País.

E enquanto a oposição vai estudar o que significam as liminares, elas por si só vão impor o seu significado, aliás, como sói acontecer com fatos cuja  importância depois se revelará.

Por artimanhas nascidas das entranhas do PT, depois de dias de reuniões sombrias, partiu um ataque direto às prerrogativas do parlamento sob a chancela do mais oportunista dos legalismos, aquele que só reconhece a constitucionalidade do impeachment quando isso serve aos interesses do governo.

O purismo que exsuda de uma argumentação que se remete ao arcabouço constitucional de 1950 para desconsiderar o atual, e com isso fazer inexistir a votação em plenário do impeachment de FHC em 1999, cheira muito mal.  E nada impede que mais venha por aí, como insinuam as notícias. A oposição vai então esperar o quê? A declaração de sua ilegalidade? O seu banimento? Que se consume o  golpe às instituições para se exilar?

Do que já está em curso se pode ter uma ideia pelas palavras da presidente da República, proferidas na noite dessa mesma fatídica 3a feira, num congresso da CUT: “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficientes para atacar a minha honra?"

Essa bofetada não soou na cara de seus desafetos e aliados, mas no rosto de todos os brasileiros e brasileiras que se indignam com a corrupção que tomou conta do País e que foram agora arrolados na nova categoria social inventada pelo PT, a dos “moralistas sem moral”, diga-se a moral do PT.

Mas as ofensas à Nação prosseguiram noite adentro e, diante do silêncio da oposição e da fragilidade do Presidente da Câmara, petistas dentro e fora do governo, animados com os sucessos no STF, puseram-se a legislar em causa própria, extrapolando os limites de razoabilidade e legalidade para as interpretações das liminares.

A conta da responsabilidade pelo que puder acontecer no País haverá de ser dividida não só com os que vierem a cumprir ordens ilegais contra um Poder constituído, mas paga também por aqueles que as incitarem e por outros que, primariamente, por suas decisões sectárias, provocaram mais instabilidade.

A presidente Dilma, no que pode ter sido o mais infeliz de seus discursos, demonstrou que conhece pouco do governo que pretende chefiar e nada do Brasil que diz governar. Se ela preferiu colocar a grave crise por que passa o País na forma da sua desastrada pergunta, está na hora dela conhecer tantos  quantos brasileiros, serenos e anônimos, que a responderão: Eu!